Lá no Haiti, sempre ouvi explicações mil sobre a origem da violência no país - a da bandidagem, a do tráfico internacional de drogas, a da repressão política e também outra classificada de “cultural”. Essa última nunca entendi e continuo não entendendo. Aliás, discordando. Como se a violência fosse algo inerente à dimensão cultural desse povo. É um julgamento antropológico que não ouso fazer.
Lendo a Reuters nesse semana, uma das duas agências internacionais que acompanham os pormenores das notícias sobre o Haiti, vi uma entrevista por telefone com o embaixador brasileiro Paulo Cordeiro de Andrade Pinto. Após defender a permanência da missão da ONU no Haiti, ele também fala das questões culturais. Vejam aí:
“(…) Ele afirmou que a missão da ONU tem registrado os abusos cometidos pela polícia haitiana e que colaborou na criação de uma inspetoria-geral da polícia para investigar essas violações, classificadas pelo diplomata como “questões culturais”. “É um país onde se resolviam as disputas no tiro e na faca”, disse. “Nós já vimos aqui casos de mães que pediram ao policial haitiano para espancar o filho, porque ele era desobediente em casa”, exemplificou. “Como mudar uma cultura centenária num só dia? O que o delegado da OAB [grifo meu: integrante da missão da Conlutas que criticou as tropas no Haiti] se esqueceu de olhar foi a visão no tempo. Nós estamos combatendo dentro do possível os abusos.”
Na história recente, dezenas de grupos armados, paramilitares, milícias paraestatais e guangues impulsionaram a violência no Haiti ao lado de governos autoritários e, não raro, igualmente violentos. Mas o que faz a “cultura” diante do “Estado predatório”?
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Tags: cultura, direitos humanos, haitianas, imprensa, política, violência
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