Arquivo para Janeiro, 2008

Mais da revolução de São Domingos

Estão na lista dos mais lidos do blog Left ~ Write, de Aniket Alam, três posts (1, 2, 3) sobre a Revolução de São Domingos, o fato histórico que culminou com a independência do Haiti. Escrevi também sobre isso para a História Viva, baseado na análise de C.L.R. James, em “Os Jacobinos Negros” (The Black Jacobins), publicado no Brasil pela editora Boitempo.

Vale a pena ver como o assunto anda viajando pela net. No primeiro post, o autor usa como epígrafes os versos de “Redemption Song”, do Bob Marley, a descrição do tráfico negreiro. No século 16, o comércio de escravos tinha no Haiti o seu principal alvo lucrativo para a burguesia francesa. A independência começou justamente pela revolta dos negros.

O que Peter Hallward disse…

Dando continuidade à série de intelectuais que refletem sobre a situação atual do Haiti, publico algumas idéias de Peter Hallward, professor de filosofia da Universidade de Middlesex. Foi um dos primeiros a de debruçar sobre a recente crise haitiana ao escrever o artigo “Option Zero” para a revista New Left Review.

Escreveu no ano passado o livro “Damming the Flood: Haiti, Aristide and the Politics of Containment”. É o escritor que faz parte das fontes de informação de Noam Chomsky. A seguir, alguns trechos de um artigo que ele publicou no Znet Haiti Watch, em dezembro.

No curto prazo, é difícil negar que a remoção forçada do governo de Aristide, em fevereiro de 2004, foi provavelmente o sucesso mais espetacular de uma administração dos Estados Unidos. O longo esforço de contenção, descrédito e, em seguida, derrubada do Lavalas nos primeiros anos do século 21, constitui o maior êxito do exercício neo-imperial de sabotagem desde a derrubada da Nicarágua Sandinista em 1990.

Em muitos aspectos, foi muito mais bem sucedida, pelo menos no curto prazo, do que triunfos imperialis anteriores no Iraque (2003), Panamá (1989), Granada (1983), Chile (1973), o Congo (1960), Guatemala (1954) ou o Irã (1953)… Não só o golpe de 2004 derrubou um dos mais populares governos na América Latina, mas ele conseguiu derrubá-lo de uma forma que não foi amplamente criticada ou mesmo reconhecida como um golpe para todos.

No longo prazo, porém, a situação é menos clara. Quando o venezuelano Hugo Chávez visitou Porto Príncipe em março de 2007, foi cumprimentado por milhares de pessoas. Naquele dia, o slogan nas ruas foi “Viva Chávez, Viva Aristide, aba Bush!” Se Aristide for autorizado a regressar ao Haiti, admite um ministro do governo atual, é mais do que provável que milhares de pessoas irão dar-lhe as boas-vindas. (…)

Aristide irá certamente continuar a ser o mais popular e mais influente homem no país, e ele retornará com o seu compromisso de transformação política não-violenta. Quando ele retornar, por outro lado, ele não será mais preso pelas limitações da diplomacia e dependência econômica que foram moldadas poderosamente nos seus últimos anos no poder. Talvez não seja por acaso que os defensores do status quo do Haiti ainda estão aterrorizados pela perspectiva deste retorno, e continuam determinados a impedi-lo a todo o custo.

Fotos do carnaval no Haiti

Essa época é muito boa para conhecer a cultura do Haiti. É época de carnaval e, assim como no Brasil, há vários blocos na rua, com desfiles e bandas com marchinhas. Em 2004, numa de minhas viagens para lá, conheci a casa de um fabricante de bonecos em Delmas. Lembrou-me Olinda.

Deixo algumas fotos recentes que encontrei pela net. Achei uma boa galeria no Flickr sobre 2007 do fotógrafo Darre-Ell, que esteve por lá.

Reuters

Desaparecido no Haiti há mais de cinco meses

lovinsky.jpg

Foi notícia no Haitianalysis.com o crescimento de apoio internacional para a busca de notícias do ativista haitiano dos direitos humanos, Lovinsky Pierre-Antoine, seqüestrado em agosto de 2007. Há uma petição de apoio à iniciativa na internet e também uma recente nota da Anistia Internacional sobre o assunto. Ele trabalhava com vítimas dos golpes de Estado, como considerava os eventos em 1991 e 2004 que derrubaram Jean Bertrand Aristide. Era um crítico da ação internacional e das forças da ONU. Aqui segue um link com uma entrevista sua em inglês antes da ação das tropas em Cité Soleil.

Primeira ciranda de textos sobre jornalismo

O André Deak, antes de passar uma temporada em Cuba, coordenou o primeiro blog carnival de jornalismo online no Brasil. A idéia foi a seguinte: blogueiros publicaram textos sobre jornalismo na rede e os artigos foram organizados em um blog, como um guia de leitura.

“A idéia, jogada na lista de discussão do Jornalistas da Web, era repetir o modelo do blogs carnivals: vários blogueiros se juntam e publicam textos sobre um determinado tema no mesmo dia. Um deles publica uma coleção com os links de quem escreveu, e assim por diante, mudando apenas o blog que hospeda o guia de leitura”, explica Deak.

Frontline produz vídeo sobre Haiti

frontline.jpg

O Frontline World produziu um pequeno vídeo com a história de um haitiano que compôs uma canção sobre a paz em tempos de violência. Vídeo vale a pena. Roda somente com player instalado.

Quantos semáforos há em Roma?

O trânsito de Porto Príncipe, no Haiti, é realmente caótico. Já demorei mais de 2 horas para fazer um trecho de três quilômetros. Mas o engraçado é como isso, para alguns, serve de indicador de pobreza. É verdade… falo sério!

Li hoje um texto do site Zenit que falava sobre o balanço da organização internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). Para citar um exemplo de pobreza e necessidade, Xavier Legorreta elencou que em toda sua viagem viu apenas quatro semáforos funcionando no Haiti.

Voltei ao topo da página e li um slogan do site Zenit: “O mundo visto de Roma”, certamente em alusão à sede do Vaticano. Aí me perguntei: Quantos semáforos há em Roma?

Talvez eles possam doar faróis para o Haiti, mas podem ter certeza que não vão ajudar um milímetro na situação do povo pobre caribenho. Talvez da elite haitiana, que deve enxergar a coisa por este mesmo ângulo.

Aqui embaixo deixo a foto do colega Spensy Pimentel com uma rua de Cité Soleil.

Spensy Pimentel/ABr

“Os destinos mais perigosos do mundo”

Muitas pessoas têm mania de listas. Minha amiga Carol Costa é uma delas. Mas a Forbes é viciada nisso: ordenação, ranking, listagens mil. De preferência com numerais cheios: 10, 50, 100! Eu, sinceramente, fico com um pé atrás quando as metodologias para chegar a estas listas não são detalhadamente explicadas nas reportagens.

Aqui um caso desses. O texto de Rebeca Ruiz para a Forbes se propõe a listar os destinos mais perigosos do mundo. Fiquei pensando que Colniza, no Mato Grosso, deve ser mais perigoso do que todos esses lugares. Mas continuei lendo. E o Haiti estava lá no meio. Segundo o texto, por causa da corrupção na polícia e do narcotráfico.

E junto dele estariam a Palestina, Iraque, Líbano, Congo e Sudão. Será o Haiti está ao lado desses? Pelo menos para o Departamento de Estado dos Estados Unidos, sim. Foi emitido por ele recentemente um alerta para viagens ao Haiti por conta da segurança, principalmente por perigo de seqüestros.

Imigração: de pobre para menos pobre

Desde quando assisti o trailer de “The Price of Sugar”, fiquei intrigado com a problema crescente da imigração haitiana para a República Dominicana. Uma troca de lugares, mas com pobrezas similares. Isso porque os haitianos geralmente migram sem documentos e dispostos a ganhar qualquer dinheiro ou comida no trabalho da agricultura.

Recebi agora via RSS uma reportagem do NYTimes que O Estado de S.Paulo traduziu sobre esse mesmo problema. Deixo abaixo um trecho, fotos e os links para o texto original, o traduzido para o português e o audio slide show. A apuração foi feita por Jason DeParle sob o título original de “A Global Trek to Poor Nations, From Poorer One”.

NYTimes

Os barracos de madeira numa encosta lamacenta são uma versão da terra prometida para o homem pobre. Têm o teto cheio de goteiras e chão de terra, não dispõem de luz elétrica nem água encanada, mas centenas de haitianos arriscam a vida para vir para cá e trabalhar nos campos próximos. Eles fazem parte de uma tendência global - habitantes de países paupérrimos que se mudam para países pobres.

Entre eles está Anes Moises, de 45 anos, um homem de pele escura com alguns cabelos brancos que trabalha em plantações de banana na República Dominicana há mais de uma década , sempre ilegalmente. Os fazendeiros pagam a ele US$ 5 por dia e lhe dizem que os haitianos não prestam. Os soldados o chamam de “diabo” e já o deportaram quatro vezes.

Mas com um rendimento médio na República Dominicana seis vezes maior que no Haiti, Moises respondeu a cada expulsão contratando um contrabandista para subornar os guardas da fronteira e levá-lo de volta. “Somos obrigados a voltar para cá. Não porque gostamos, mas porque somos pobres”, disse ele. “Quando cruzamos a fronteira, nossa vida melhora um pouco, pois conseguimos comprar sapatos e talvez um frango.”

Pelo cancelamento da dívida do Haiti

O ZNet reproduziu um bom artigo de Joe Emersberger and Jeb Sprague, para o Haitianalysis.com, sobre a dívida do Haiti. Os autores mostram o debate sobre o cancelamento total da dívida haitiana como alternativa para o desenvolvimento. E citam um estudo da CEPR sobre o assunto.

O país provavelmente não atingirá as condições necessárias para entrar no programa do FMI de países altamente envididados até setembro de 2008. O que tratá mais custos para o país, cerca de US$ 49 milhões, ou melhor, 26% de tudo o que o país gasta com saúde pública atualmente.

O argumento do cancelado é bem parecido com o que entidades brasileiras defendem, como é o caso da Rede Brasil em conjunto com a Jubileu Sul - quem me explicou isso foi a coordenadora Fabrina Furtado na reportagem que fiz para a Rolling Stone, no ano passado.

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