Expansão “brasiguaia” da soja

A soja é um dos itens de maior peso da economia do Paraguai. A produção nacional é estimada em 7,5 milhões de toneladas na safra 2007/2008 – muito se comparado ao tamanho relativamente pequeno do país e à sua população de 6,6 milhões de habitantes. A expansão da sojicultura começou há 30 anos, quando a colheita atingia cerca de 500 mil toneladas. Hoje, o país já está entre os dez maiores produtores do mundo, segundo dados comparativos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).

A história do avanço da soja em terras paraguaias, assim como a da modernização agrícola e a dos impactos sociais causados por ela, estão totalmente vinculadas à expansão da cultura no Brasil, a partir da década de 1970. À época da construção da usina hidrelétrica de Itaipu, fazendeiros, sobretudo os paranaenses, começaram a ocupar terras no Paraguai, atraídos pela proximidade geográfica, o baixo preço da terra e o apoio explícito da ditadura do general Alfredo Stroessner.

Proprietários rurais estimam que a venda de um hectare de terra em uma região sojeira do Paraná resultava em uma quantidade de dinheiro suficiente para comprar, em média, outros quatro hectares no Paraguai. Ou seja, a oportunidade faria com que pequenos e médios produtores pudessem ampliar sua produção. É o caso de brasileiros dos municípios paranaenses de Londrina, Palotina, Cascavel, Marechal Rondon e Campo Mourão, que hoje vivem no país vizinho. Além da venda da terra, o dinheiro acumulado com a produção da soja e o desestímulo devido à decadência do café eram o motor para os “pioneiros” cruzarem a fronteira.

O fazendeiro Virgílio Moreira chegou no final da década de 1970 ao distrito de La Paloma, no Departamento (área administrativa equivalente aos Estados brasileiros) de Canindeyú. Vendeu suas terras no Paraná para se mudar. Segundo ele, á época, havia quem conseguisse comprar 30 vezes mais terras no Paraguai do que possuía no Brasil. “Uma coisa de louco”, recorda-se. Hoje, mora com a família em uma boa casa avarandada, cercada por uma fileira de eucaliptos. O restante da paisagem até o horizonte é soja transgênica – dois mil hectares plantados junto com outros brasileiros. Na safra 2007/2008, o grupo espera conseguir ao menos US$ 800 mil com a venda do produto. La Paloma tem brasileiros donos de silos, empresas de transporte e tecnologia agrícola importada do Brasil.

O brasileiro naturalizado paraguaio Tranquilo Fávero é hoje considerado o maior produtor de soja do Paraguai. Tem propriedades em 13 diferentes departamentos para o plantio de soja e outras culturas, como milho, sorgo, trigo, canola e girassol, além da criação de gado. A entrada intensa do capital brasileiro na agricultura paraguaia acabou por concentrar terras e colocar em risco a produção de subsistência dos pequenos agricultores. O formato de ocupação trouxe impactos semelhantes à modernização da agricultura no Paraná: êxodo rural, concentração de renda, baixa geração de emprego e trabalho em condições degradantes na abertura das fronteiras agrícolas nas décadas de 1970 e 1980.

Impulsionada pelo capital agrícola brasileiro, a soja ocupou vasta área de fronteira, nos departamentos de Canindeyú, Alto Paraná, Itapua, chegando até Caagazú, San Pedro e Guairá – este do lado paraguaio. Aprofundaram-se os laços de integração com o Brasil – e também os de dependência. A sojicultura paraguaia depende do capital de imigrantes brasileiros e das companhias transnacionais, como ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus.

Além dos trabalhadores paraguaios, milhares de brasileiros imigraram em busca de emprego. Muitos foram foram submetidos a trabalho escravo, tratados de forma desumana e impedidos de deixar o serviço, em plantações de hortelã, na produção de carvão e na preparação do solo para os sojicultores. Até o começo da década de 90, eram comuns as denúncias chegarem até o lado brasileiro. Reinaldo de Oliveira Paz, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Guairá, município paranaense localizado na fronteira com o Paraguai, conta que chegou a receber pessoas que fugiam de fazendas. “Eram muitos casos. Tinha gente que fugia das fazendas e chegava ao Brasil atravessando o rio à noite”, relata. A situaçao trabalhista continua precária em muitas fazendas, desrespeitando tanto liberdades individuais quanto direitos humanos.

Nesse contexto, entidades sociais paraguaias e brasileiras discutem a implantação de um Pacto Sul Americano pela Erradicação do Trabalho Escravo, nos moldes do Pacto Brasileiro, fazendo com que empresas que atuem no Paraguai assumam os mesmos compromissos de promoção do trabalho decente com os quais se comprometeram no Brasil.

Em paralelo, o Paraguai passa a conviver com uma inflação dos preços da comida. Os itens alimentares que fazem parte do Índice de Precios al Consumidor (IPC) aumentaram 6,1% no primeiro trimestre de 2008, puxando a inflação global para 3,6% no período. O país tem produção agrícola para atender sua população, embora não consiga distribuí-la igualitariamente. Com grande parte da agricultura voltada para as exportações, a soberania alimentar de sua população torna-se vulnerável às altas das cotações internacionais e à demanda crescente de países consumidores.

*esta análise faz parte do relatório “O Brasil dos Agrocombustíveis, impactos das lavouras sobre a terra, o meio e a sociedade – soja e mamona”, produzido e publicado pela Repórter Brasil.

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4 thoughts on “Expansão “brasiguaia” da soja

  1. Ih, rapaz, citou minha cidade natal e a da minha família. Taí um assunto que eu conheço de perto. Tenho parentes que largaram o sítio em Palotina para tentar a sorte no Paraguai, e continuam lá. No final, quase 20 anos depois, continuam na mesma em que estavam antes de sair. Acho que foram poucos os que se deram realmente bem, e muitos, na imensa maioria paraguaios, se deram bem mal.

  2. aloisiomilani disse:

    O diferencial da história é que a soja é muito (mas muito) lucrativa em grandes extensões e com capital de giro. Nesse momento, com o preço da soja lá em cima, e o do milho da safrinha na sombra, os brasileiros que possuem grandes terras lá conseguem ganhar uma boa grana. Sobre os paraguaios, nem se fala. Os pequenos produtores chegaram a trabalhar como empregados nas lavouras de hortelã. Depois, foram para as cidades no serviço informal. Andar por ali é ver um mar de soja.

  3. Antonio Marcos Rosa De Souza disse:

    É isso aí mesmo hoje estamos plantando soja no Paraguai quando entramos no finala da decáda de 70 início da decáda de 80 fomos hoje plantamos quase 700 alqueires

    Masi foi fácil não coisa foi difícil mas o Paraguai é um excelente lugar para se viver

  4. Antonio Marcos Rosa De Souza disse:

    Somos aí de perto desse rapaz aí que vocês Falaram Virgílio no Munucipio de Lá Paloma Paraguai abraçosssss

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