Textos categorizados 'cultura'

Já pensou em falar creoule? Eu sim…

No blog do Deak, li um comentário da Paula Skromov, integrante do Comitê Pró-Haiti Brasil, sobre uma instituição em São Paulo que dá aulas de creoule haitiano. Isso é que é intercâmbio cultural. A Sala Sequoia ensina também guarani, aymara, quechua, yorubá. A seguir um resumo da aula de creoule.

As aulas são ministradas pelo prolífico professor Firto Regis. Ele é natural de Cap Haitien, ao norte do Haiti. Nas aulas, ele comenta as pequenas diferenças existentes entre o kreyòl do norte e do sul do país, e também as diferenças entre a elite rica e a maioria da população.

Agora, que moro e trabalho em São Paulo, vou checar os horários para ver se entro na turma. Até porque só ensaio algumas palavras do creoule. :)

Biscotos de terra… o eterno retorno

Não sei direito quem recomeçou, mas acho que foi o The New York Times. Alguém deve ter feito isso antes também. Não sei, não procurei. Mas depois do jornalão norte-americano, dezenas de jornalistas fizeram esta reportagem - mostrar uma “comida” haitiana chamada “té”, um biscoito feito com terra colhida na região de Hinche, manteiga, água e sal. Isso mesmo, uma espécie de cookie de lama. O assunto virou coqueluche da imprensa que foi até o Haiti nos últimos quatro anos.

Na última semana, recebi em meu leitor de RSS uma centena de entradas em blogs e sites reproduzindo uma notícia da Associated Press. Virou hit pelos blogs. Veja o resultado da busca do Technorati. Em 2006, quando eu estava na Agência Brasil, fizemos uma pequena descrição da iguaria um dia depois de uma equipe do SBT. As fotos abaixo são do fotógrafo Marcello Casal Jr.

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Os biscoitos são uma forma de complemento precário da alimentação para muita gente pobre, mas também é moda para mulheres grávidas, carentes ou não, com o argumento de aumentar o ferro no sangue. O risco maior é a cólera, porque a água da massa não é tratada. Eu preferi não experimentar.

Fotos do carnaval no Haiti

Essa época é muito boa para conhecer a cultura do Haiti. É época de carnaval e, assim como no Brasil, há vários blocos na rua, com desfiles e bandas com marchinhas. Em 2004, numa de minhas viagens para lá, conheci a casa de um fabricante de bonecos em Delmas. Lembrou-me Olinda.

Deixo algumas fotos recentes que encontrei pela net. Achei uma boa galeria no Flickr sobre 2007 do fotógrafo Darre-Ell, que esteve por lá.

Reuters

Frontline produz vídeo sobre Haiti

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O Frontline World produziu um pequeno vídeo com a história de um haitiano que compôs uma canção sobre a paz em tempos de violência. Vídeo vale a pena. Roda somente com player instalado.

Realismo fantástico e a independência do Haiti

A independência do Haiti é um capítulo sensacional da história latino-americana. Primeiro porque foi comandada a partir de uma rebelião de escravos africanos em um continente de países escravocratas. Segundo porque gerou a primeira república negra das Américas. Terceiro, o mais forte e sentimental deles, é que esse fato advém de um sofrimento brutal dos africanos trazidos à força nos porões dos navios negreiros.

Quarto é que existe uma certa mística em torno desse fato e sua evolução, o que venho descobrindo nas pesquisas que tenho feito ultimamente para uma reportagem. Deixo mais detalhes para a própria matéria, mas adianto uma história haitiana que ajudou a inaugura a narrativa latino-americana do realismo fantástico, na qual a realidade se misturava com o absurdo para captar uma nova essência.

É o caso de uma revolta liderada por um quilombola, Mackandal, que fugiu para as montanhas haitianas e organizou uma resistência contra os brancos escravocratas produtores de cana-de-açúcar. Isso antes do grande movimento independentista influenciado pela Revolução Francesa e liderado por Toussaint L’Overture em fins do século 18.

Mackandal era visionário, grande orador e se dizia imortal. Tinha seguidores aos montes. Planejou envenenar a água das casas dos brancos para libertar os escravos. Essa história foi mote para o livro do escritor cubano Alejo Carpentier, “O reino deste mundo”, um dos percussores do gênero fantástico.

Noutro livro, “Os jacobinos negros”, de C.L.R. James, encontrei uma boa referência sobre o fato. Está na página 34:

Mackandal concebeu o audacioso plano de unir os negros e expulsar os brancos da colônia. Era um negro vindo da Guiné, que tinha sido escravo no distrito de Limbé, o qual mais tarde se tornaria um dos grandes centros da revolução. Mackandal era um orador, na opinião de um branco contemporâneo, e com a mesma eloqüência dos oradores europeus daqueles dias, diferente apenas na força e no vigor, em que lhes era superior. Destemido, embora maneta devido a um acidente, tinha uma fortaleza de espríto que sabia preservar mesmo em meio à mais cruel das torturas. Ele dizia poder prever o futuro; como Maomé, teve revelações; convenceu seus seguidores de que era imortal e exercia sobre eles um tal domínio que consideravam uma honra servi-lo de joelhos. (…)

Durante seis anos, construiu sua organização, e ele e seus seguidores envenenavam não apenas brancos mas membros desobedientes do próprio bando. Então, planejou que em determinado dia a água de todas as casas na capital da província seria envenenada, e os brancos seriam atacados durante as suas convulsões e angústias de morte. (…) A sua temeridade foi a causa de sua queda. Um dia, ele foi até uma fazenda, embebedou-se e foi traído. Capturado, foi queimado vivo. A revolta de Mackandal não se realizou e foi o único indício de uma tentativa de revolta organizada durante os cem anos que precederam a Revolução Francesa.

O país negro conseguirá ir à Copa da África?

Não, não é do Brasil que estou falando. É outro país negro: o Haiti. Eles só foram a uma Copa, a de 1974, na Alemanha. Na primeira fase tiveram três derrotas seguidas - Itália (3 a 1, de virada), Polônia (7 a 0, sem comentários), e Argentina (4 a 1, a pá de cal). Mas foi o maior feito da história de sua equipe, que voltou para casa ovacionada. Ainda era época da longa ditadura de “Papa Doc” e “Baby Doc”. Nunca mais conseguiram chegar à disputa mundial. Nas últimas eliminatórias, por exemplo, os haitianos foram desclassificados pelo time da Jamaica.

O time haitiano que foi à Copa de 1974

Imaginem o que seria para o Haiti ir para uma Copa na África do Sul? Como o país ama futebol, seria quase uma diáspora às avessas. No país caribenho, há vários times pequenos. Muitos jogadores atuam nos Estados Unidos. Seus campeonatos sofrem com a instabilidade política. Em 2004, por exemplo, quando houve a queda do ex-presidente Jean Bertrand Aristide e a missão de paz da ONU começou, o campeonato nacional foi cancelado por falta de segurança. A infra-estrutura é precária. Antes do jogo com a seleção brasileira, o estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, estava em frangalhos.

Vou fazer minha análise futebolística (!). São três vagas certas e uma repescagem. E 35 países em disputa. Historicamente, as eliminatórias da América do Norte, Central e Caribe são dominadas por México e Estados Unidos. Haveria uma brecha para tentar disputar outras duas vagas, incluindo uma possível repescagem com times sul-americanos. Costa Rica e Jamaica têm evoluído um pouquinho (?), então Haiti teria que comer pelas beiradas. O problema é que os haitianos quase não treinam juntos. E a disputa começa por mata-mata. Se forçar, dá.

Em uma de minhas idas a Porto Príncipe, naquele jogo com a seleção brasileira em agosto de 2004, comprei minha camisa para torcer. É azul forte com um símbolo da confedereção entre dois coqueiros caribenhos. Os fanáticos como eu que passarem por este blog podem acompanhar os resultados pelo site da Concacaf. O primeiro jogo é Haiti contra o vencedor de Nicarágua e Antilhas Holandesas. Vai ferver, não?

Vodu haitiano em imagens

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No blog do MediaStorm, há um link para o trabalho do The Digital Journalist sobre a religião vodu no Haiti. A apresentação da galeria do fotógrafo Les Stone diz: “A violência é apenas um dos aspectos [no Haiti]; a cultura e a forte dignidade dos haitianos é outra”. Como o candomblé no Brasil, a prática é uma das mais surpreendentes no contato com o cotidiano do país caribenho. Visitei um “terreiro” de vodu em minha primeira viagem ao Haiti, em agosto de 2004. Era o fundo de um terreno bem no alto de Porto Príncipe. Sobre fogueiras, grandes tachos de arroz com lentilhas e carne de porco - as oferendas. O clima era forte. O batuque me lembrava os sons do candomblé maranhense.

 

Norman Mailer, morto

NYTimes

O escritor Norman Mailer morreu. Aos 84 anos. Li seu obtuário hoje no The New York Times. Muitos escolhem filmes que marcaram suas primeiras impressões sobre a guerra. Há quem escolha Apocalipse Now, Band of Brothers e outros. Minha mais forte impressão de uma situação de guerra é justamente um livro de Mailer, a novela Os nus e os mortos, aqui no Brasil lançada em dois volumes. Li duas vezes. Página por página, em cada descrição detalhada da rotina de um pelotão na Segunda Guerra Mundial, você se sente num campo de batalha. Com seu pragmatismo desumano.

 

Opinião e exclusividade sem jornalismo

O Jornal do SBT forçou a barra com as duas últimas reportagens que fez sobre o Haiti (dia 25 e dia 26). No vídeo de sexta-feira, mesmo com uma boa intenção de falar sobre o Haiti, contrabandeou uma opinião sobre Hugo Chávez que a matéria não sustenta com fatos. “O governo e os comandantes militares não admitem mas também não negam: chefiar a missão da ONU é uma maneira de o país se contrapor à crescente influência do presidente venezuelano, Hugo Chávez, entre os países da nossa vizinhança”, diz. É até uma hipótese a se pensar, mas não passa disso se não houver apuração.

Ao mesmo tempo, “vendeu” no abre uma idéia de que os haitianos estão “descobrindo” a cultura brasileira, mesmo do lado dos Estados Unidos. O nosso futebol é amado lá, sim, mas a cultura norte-americana se impõe para eles de maneira muito mais próxima. Ah… o Carlos Nascimento cita que no Haiti se fala francês. Ela é a língua oficial, mas a esmagadora maioria das pessoas fala creoule, mistura do francês com línguas africanas. A diferença é muita.

A matéria de quinta-feira era uma boa possibilidade de explicar a situação do Haiti. Num espaço curto, elencou elementos importantes sobre a ausência de saneamento básico e a oposição entre a vida da elite e dos pobres. “Os poucos ricos vivem no alto da serra e têm carros blindados comprados nos Estados Unidos. Miami fica pouco mais de uma hora de vôo. Lá embaixo, a imensa maioria da população vive na probreza, anda de tap-tap, o único meio de transporte coletivo. Qualquer veículo é improvisado para transportar passageiros. Pelo equivalente a 5 centavos de real dá para atravessar a cidade”, registra.

No final, uma passagem do repórter mistura um monte de informações sem fonte declarada - um problema quando se fala em conflitos no Haiti, que sempre tem diversos lados. O final deveria, para se fazer minimamente jornalismo, se transformar numa matéria à parte. O repórter ressalta a exclusividade de se entrar em Cité Soleil à noite, elenca dados de presos e mortos sem citar a fonte (esses dados são contraditórios), não entrevista nenhum morador da região para checar sua hipótese e nomeia os quiméres, grupos armados aliados de Aristide, como os únicos existentes.

Há outros grupos armados, como os ex-militares, os narcotraficantes etc. Com interesses e ações diversas. “É a primeira vez que uma equipe de televisão passa por Cité Soleil à noite, desde o início da intervenção da ONU no Haiti. Fuzis com mira a laser ajudam a vasculhar os cantos. Quando o governo caiu, as gangues, aqui chamadas de quiméres, começaram a brigar por espaço - 252 chefes criminosos foram presos e dezenas morreram em confronto com os militares. A TV haitiana comemora. Agora a vida anda mais tranqüila mas em meio a tanta miséria ainda é difícil dizer o que melhorou”, diz o texto.

Paulo Autran morreu antes… no Estadão

Bom, no meio de um plantão na redação, vi que o ator Paulo Autran morreu. Eram 4 horas e 10 minutos da tarde… mas o site do Estadão o matou antes. Às 11h04, uma notícia de duas linhas informava a morte “confirmada” pela assessoria de imprensa do Hospital Sírio Libanês. Essa mesma notícia foi para a manchete principal do portal. E depois sumiu. Claro, que o estado dele era gravíssimo e alguém passou o carro na frente dos bois.

Até guardei a tela, veja a seguir.

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A matéria foi deletada da lista de notícias. Sem correção ou justificativa alguma. Depois o site registrou sua internação em estado grave. Só às 16h33 outra matéria trouxe, agora oficialmente, a morte confirmada. Autran morreu primeiro numa apuração do Estadão.

Para não dizerem que não falei de flores, deixo a minha homenagem ao ator com um trecho de um perfil que guardo a sete chaves na minha coleção da Revista Realidade:

(…) quando Autran fazia o Otelo de Shakespeare, o crítico Décio de Almeida Prado escrevia sobre ele: ‘Paulo Autran é certamente o ator mais seguro de nosso teatro, bom na comédia e no drama, na peça antiga e na moderna, tem força e delicaleza, sensibilidade e inteligência’. Forte e delicado, sensível e inteligente, Paulo Autran tem a alma dos velhos gregos num corpo de romano antigo. É um homem maduro, de cabelos grisalhos, de entradas cada vez mais pronunciadas, de olheiras profundas contornando os olhos de combinação estranha – o esquerdo é verde, o direito castanho – o nariz e o queixo angulosos e agressivos, a testa alta, os lábios finos mordendo sempre um sorriso irônico. E as mãos bem tratadas ajudando as frases com gestos naturais (…)

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