Textos categorizados 'exploração sexual'

Haiti, onde se compra escravos por 50 dólares

É estranho como alguns temas são recorrentes na carreira de jornalista. Há cerca de cinco anos atrás fiz um livro-reportagem sobre o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. Viajei para Recife, Palmares, Fortaleza e Canaã para acompanhar denúncias. Agora, em minhas pesquisas sobre o Haiti, a história dos restavek reapareceu com este tema. Tenho a imprenssão que são casos de semelhante violência, mas a dimensão haitiana é mais cruel pelo incrível assédio de famílias estrangeiras.

Na semana passada, ouvi uma ótima entrevista na NPR, rádio pública dos Estados Unidos, com o autor de um novo livro sobre a escravidão moderna. Benjamin Skinner escreveu “A Crime So Monstrous: Face-to-Face with Modern-Day Slavery“. Em sua entrevista relatou que viveu situações no Haiti em que se podia comprar uma pessoa por US$ 50 e com ela explorar sexualmente ou para o trabalho doméstico. Clique aqui para ouvir em inglês a entrevista de oito minutos com ele pela NPR. Há um trecho com a gravação de sua apuração no Haiti.

“Para nossa referência, digamos que o centro do universo moral é a sala S-3800 do Secretariado das Nações Unidas, em Manhattan [sala do comandante da ONU]. A partir daqui, você está há cerca de cinco horas de ser capaz de negociar a venda, em pleno dia, de um saudável menino ou uma menina. Seu escravo virá em qualquer cor que quiser, como Henry Ford disse, contanto que seja preto [frase famosa atribuída ao fundador da empresa Ford que iniciou a fabricação em massa de automóveis]. Idade máxima: quinze. Ele ou ela podem ser usados para qualquer coisa. Sexo ou trabalhos domésticos são os mais freqüentes usos, mas cabe a você decidir.”

Aqui um trecho do livro de Skinner com tradução livre minha e alguns grifos pessoais. Ele descreve sua saga ao chegar no Haiti, descer no Aeroporto Tossaint L’Ouverture e procurar um escravo. “Em 1850, um escravo custaria entre US$ 30.000 para US$ 40.000 - em outras palavras, era como investir num Mercedes. Hoje, você pode ir ao Haiti e comprar uma garota de nove anos para usar como uma escrava sexual e doméstica por US$ 50. A desvalorização da vida humana é incrivelmente pronunciada”, disse na entrevista à NPR.

Soldados da ONU e o abuso sexual

A história desse post começa em agosto de 2004, às vésperas do jogo entre a seleção brasileira e o time haitiano no que ficou conhecido como “jogo da paz”. Era minha primeira viagem ao Haiti. Entre minhas pautas estava a checagem da missão diante de seus objetivos (desarmamento, manutenção da segurança, organizar novas eleições etc). E também checar uma denúncia de tropas da ONU teriam abusado sexualmente de uma adolescente no Haiti.

Era uma notícia vaga, que envolveria soldados sul-americanos. Não havia fonte identificada, nem acusado formal da denúncia. Dificilmente conseguiria achar, em sete dias de trabalho, o rastro dessa história. Mas tentei. Fui checar se havia alguma investigação formal na ONU. Disseram que não. Fui checar numa delegacia de polícia. Nem sinal. Tentei contatar uma ONG de direitos da mulher. Disseram que ouviram falar, não tinham informações detalhadas. Não tinha notícia.

Nas posteriores visitas, confirmei que os soldados brasileiros saíam do Haiti e passeavam pela República Dominicana, onde, quem quisesse, podia “aliviar” a distância de casa e das mulheres brasileiras com a prostituição caribena. Soube também que havia uma adolescente de 16 anos, cuja denúncia de abuso sexual foi investigada três vezes pela ONU. Foi arquivada por “falta de provas”. A BBC noticiou o fato. Mas nenhuma notícia foi tão clara, arrebatadora e desmoralizante quando a deste mês de novembro.

Cento e oito capacetes-azuis do Sri Lanka foram repatriados após terem sido investigados por terem “pagado” por sexo no Haiti. O comunicado da ONU sobre o assunto é de uma burocracia diletante. O jornal The New York Times publicou as falas da porta-voz do secretário-geral das Nações Unidas. Mas ninguém avançou em saber quais são as punições pela ONU e pela legislação do Sri Lanka. Procurar as haitianas envolvidas então, nem pensar.

Ninguém citou, por exemplo, que as leis do Sri Lanka podem condenar os soldados a trabalho forçado como pena máxima. No Brasil, só o jornal Folha de S.Paulo registrou o caso com uma matéria produzida a partir de agências internacionais. O silêncio da imprensa brasileira e sul-americana sobre esse caso é sinal de que ainda pouca gente acompanha a situação do Haiti, a não ser pelo olhar das tropas militares. Reproduzimos assim uma visão elitista no jeito de fazer jornalismo.


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