Textos categorizados 'imprensa'

Biscotos de terra… o eterno retorno

Não sei direito quem recomeçou, mas acho que foi o The New York Times. Alguém deve ter feito isso antes também. Não sei, não procurei. Mas depois do jornalão norte-americano, dezenas de jornalistas fizeram esta reportagem - mostrar uma “comida” haitiana chamada “té”, um biscoito feito com terra colhida na região de Hinche, manteiga, água e sal. Isso mesmo, uma espécie de cookie de lama. O assunto virou coqueluche da imprensa que foi até o Haiti nos últimos quatro anos.

Na última semana, recebi em meu leitor de RSS uma centena de entradas em blogs e sites reproduzindo uma notícia da Associated Press. Virou hit pelos blogs. Veja o resultado da busca do Technorati. Em 2006, quando eu estava na Agência Brasil, fizemos uma pequena descrição da iguaria um dia depois de uma equipe do SBT. As fotos abaixo são do fotógrafo Marcello Casal Jr.

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Os biscoitos são uma forma de complemento precário da alimentação para muita gente pobre, mas também é moda para mulheres grávidas, carentes ou não, com o argumento de aumentar o ferro no sangue. O risco maior é a cólera, porque a água da massa não é tratada. Eu preferi não experimentar.

Paulo Autran morreu antes… no Estadão

Bom, no meio de um plantão na redação, vi que o ator Paulo Autran morreu. Eram 4 horas e 10 minutos da tarde… mas o site do Estadão o matou antes. Às 11h04, uma notícia de duas linhas informava a morte “confirmada” pela assessoria de imprensa do Hospital Sírio Libanês. Essa mesma notícia foi para a manchete principal do portal. E depois sumiu. Claro, que o estado dele era gravíssimo e alguém passou o carro na frente dos bois.

Até guardei a tela, veja a seguir.

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A matéria foi deletada da lista de notícias. Sem correção ou justificativa alguma. Depois o site registrou sua internação em estado grave. Só às 16h33 outra matéria trouxe, agora oficialmente, a morte confirmada. Autran morreu primeiro numa apuração do Estadão.

Para não dizerem que não falei de flores, deixo a minha homenagem ao ator com um trecho de um perfil que guardo a sete chaves na minha coleção da Revista Realidade:

(…) quando Autran fazia o Otelo de Shakespeare, o crítico Décio de Almeida Prado escrevia sobre ele: ‘Paulo Autran é certamente o ator mais seguro de nosso teatro, bom na comédia e no drama, na peça antiga e na moderna, tem força e delicaleza, sensibilidade e inteligência’. Forte e delicado, sensível e inteligente, Paulo Autran tem a alma dos velhos gregos num corpo de romano antigo. É um homem maduro, de cabelos grisalhos, de entradas cada vez mais pronunciadas, de olheiras profundas contornando os olhos de combinação estranha – o esquerdo é verde, o direito castanho – o nariz e o queixo angulosos e agressivos, a testa alta, os lábios finos mordendo sempre um sorriso irônico. E as mãos bem tratadas ajudando as frases com gestos naturais (…)

Onde estão os ex-ditadores?

Argentina, Bolívia, Equador, Haiti e Venezuela debatem formas de trazer de volta do exílio seus ex-ditadores para julgar casos de corrupção ou violações dos direitos humanos. Cito aqui outra matéria do New York Times, mais uma vez. Até porque só eles tem feito, nos últimos 15 dias, matérias legais envolvendo o Haiti.

O bom gancho é o caso do Haiti, cujo novo governo eleito democraticamente tenta recuperar a fortuna em recursos públicos “levados” com o ditador Baby Doc, hoje exilado na França, ex-metrópole na época colonial. O filho Duvallier manteve a “ditadura vitalícia” do pai e a repressão dos ton ton macoute, o braço militar repressor do governo.

Além de Baby Doc, outro ditador haitiano é general Raul Cedras, que deu um golpe militar e derrubou Jean Bertrand Aristide na primeira eleição democrática pós-ditadura. Estimativas é que mais de 5 mil pessoas, sobretudo os aliados do partido Lavalas, de Aristide, foram executadas nesta última ditadura do país.

Vale ver o infográfico com o “cara-a-cara” dos ex-ditadores exilados. Procurem aí. É como na brincadeira proposta pelo escritor Martin Handford com o Wally. Onde estão os ex-ditadores?

 

 

 

A questão “cultural” da violência no Haiti

Lá no Haiti, sempre ouvi explicações mil sobre a origem da violência no país - a da bandidagem, a do tráfico internacional de drogas, a da repressão política e também outra classificada de “cultural”. Essa última nunca entendi e continuo não entendendo. Aliás, discordando. Como se a violência fosse algo inerente à dimensão cultural desse povo. É um julgamento antropológico que não ouso fazer.

Lendo a Reuters nesse semana, uma das duas agências internacionais que acompanham os pormenores das notícias sobre o Haiti, vi uma entrevista por telefone com o embaixador brasileiro Paulo Cordeiro de Andrade Pinto. Após defender a permanência da missão da ONU no Haiti, ele também fala das questões culturais. Vejam aí:

“(…) Ele afirmou que a missão da ONU tem registrado os abusos cometidos pela polícia haitiana e que colaborou na criação de uma inspetoria-geral da polícia para investigar essas violações, classificadas pelo diplomata como “questões culturais”. “É um país onde se resolviam as disputas no tiro e na faca”, disse. “Nós já vimos aqui casos de mães que pediram ao policial haitiano para espancar o filho, porque ele era desobediente em casa”, exemplificou. “Como mudar uma cultura centenária num só dia? O que o delegado da OAB [grifo meu: integrante da missão da Conlutas que criticou as tropas no Haiti] se esqueceu de olhar foi a visão no tempo. Nós estamos combatendo dentro do possível os abusos.”

Na história recente, dezenas de grupos armados, paramilitares, milícias paraestatais e guangues impulsionaram a violência no Haiti ao lado de governos autoritários e, não raro, igualmente violentos. Mas o que faz a “cultura” diante do “Estado predatório”?

Linhas cruzadas, água turva

Há tempos tenho lido linhas cruzadas nos jornais brasileiros comparando a ação dos soldados das Nações Unidas no Haiti com a possibilidade de agir contra a violência no Rio de Janeiro. A coisa começou a crescer na imprensa após perguntas provocadas pelas jornalistas Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo, e Eliane Cantanhêde, da Folha de S.Paulo, na recente visita do ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao país caribenho.

Estava lá e vi como o tema surgiu. Em meio a uma conversa rápida, sem um aprofundamento, o ministro respondeu reativamente ao tema. O assunto rendeu por dois dias aqui no Brasil, assim com matéria recheadas de hipóteses, sem contextualização sobre uma possível confusão entre as regras jurídicas para da “guerra” e “ações policiais” em conflitos internos.

Marcello Casal Jr./ABr

Na última quarta-feira (3), o colunista Merval Pereira, de O Globo, também descobriu o assunto. Escreveu uma coluna elogiosa ao pensamento do ministro Nelson Jobim no programa Roda Viva. “Ao mesmo tempo em que se declarou favorável a essa atuação, mostrou os passos que têm que ser dados até que se chegue a uma nova estrutura legal que permita a atuação eficaz dos militares nos conflitos internos”, disse.

O pulo do gato é que há regras para duas situações jurídicas. Uma para ações de Garantia de Lei e Ordem (GLO), previstas por doutrinas policiais, que mostra como se responde a conflitos armados internos. O segundo conjunto de regras é sobre o direito à guerra. Esse é outra coisa. Numa guerra, um pelotão pode entrar num refeitório inimigo e atirar contra todos. Vale é o objetivo militar, desde que não fira o direito humanitário.

Não é o que acontece no Haiti. Lá, há conflitos internos. Com regras de engajamento para atuação das tropas da ONU. Inclusive a medida da proporcionalidade. Esse é bom termo de comparação. Em conflitos internos, usa-se gás de pimenta contra quem joga pedra. E tiro de metralhadora contra bandidos que atiram com AR-15. E tudo com uma grande estrutura quase “real-time” de fiscalização de direitos humanos.

No caso brasileiro, teríamos que encontrar um instrumento jurídico para reconhecer que a violência traz uma situação de sítio. Sem um medidor sereno, um conflito armado assim viraria nossa versão tupiniquim da “guerra ao terror”. Sob o risco de também reproduzir o ambiente de “Tropa de Elite”.

Liberdade não está condicionada à perfeição

Para quem já não leu, vale a referência. Aqui está um link para o segundo texto da série de quatro artigos que Eugênio Bucci escreve para o Observatório da Imprensa. No abre de seu texto, ele argumenta o que, na minha visão, é o ovo da serpente daqueles que defendem um “jornalismo” que seja o contraponto da “visão” da grande mídia comercial. Sobretudo, os governantes que cogitam, mesmo que em seu íntimo, construir uma mídia que sirva de porta-voz para suas versões épicas de política. Além de apontarem, incansavelmente, os erros como forma de desligitimação da imprensa. E disso se convencem se tratar de democracia para a mídia.

Não há razoabilidade, como já ficou demonstrado [ver "A missão de servir ao cidadão e vigiar o poder"] em supor que a liberdade de imprensa deva se condicionar à inexistência de erros. Ela não é uma recompensa que se outorgue aos veículos que acertam ou um privilégio que se interdite aos que erram; é, sim, premissa inegociável para a prática do jornalismo, seja ele bom ou ruim. A ninguém no governo pode caber a tarefa (ou a veleidade) de melhorar (ou de pretender melhorar) o nível do jornalismo. Isso não faz sentido.

Imprensa, liberdade e independência

Aproveito para registrar a última entrevista concedida pelo Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, para o site Observatório da Imprensa. O acúmulo teórico e prático dele o faz hoje o principal pensador da comunicação pública no país, com uma maturidade sobre os conceitos de liberdade de imprensa, ética jornalística e independência difícil de encontrar no Brasil. Entre os destaques dessa entrevista está o conceito de que o jornalismo deve se manter livre dos governos.

(…) o primeiro dever do jornalismo é ser livre. Ser explicitamente livre. Para começar, ele precisa ser livre do governo, qualquer governo. Nessa matéria, chamo atenção para um ponto sobre o qual temos falado pouco: o grande volume de verbas públicas que vão parar nos veículos comerciais como anúncios publicitários é um fator preocupante. Nos órgãos de imprensa mais vulneráveis, esse dinheiro – ou a sua ausência – pode ser uma pressão sobre a linha editorial. Esses recursos tendem a congregar um conjunto de veículos que se afinam em demasia com as causas dos governos – federal, estaduais ou municipais –, o que é algo tradicional no Brasil e não é nada saudável.

De minha parte, eu me sinto mais tranqüilo com uma imprensa que às vezes pode até cometer excessos, mas os comete com franca independência em relação aos governos, do que me sentiria com uma imprensa toda ajuizada que sempre apoiasse os governantes. Claro que a imprensa deve ser elegante, equilibrada, justa, objetiva etc., ao menos do meu ponto de vista, mas seu primeiro dever é ser independente. Financeira e editorialmente. Se alguns veículos querem bancar partidos políticos, desde que não o façam com dinheiro público, e desde que não sejam objeto de concessão pública, como é o caso das emissoras de rádio e TV, estão no seu direito. Se carregarem nas tintas, se distorcerem, cedo ou tarde perderão credibilidade e pagarão por isso.

Esse critério rebate no centro da discussão da liberdade de imprensa. Quase um ano atrás, quando ainda era presidente da Radiobrás e o debate sobre imprensa voltou à baila após o segundo turno das eleições, Bucci também deu uma entrevista semelhante ao Observatório. Ressaltou que a imprensa é o lado fraco diante da potência do Estado. “O Estado não é vítima”.

Eu acho fundamental que os veículos de imprensa, o jornalismo seja debatido. Acho mesmo, que é dever de vários representantes de organizações sociais, de partidos, de instituições criticarem e discutirem os meios de comunicação. Discutirem o que acontece no jornal, na revista, na TV. Quanto mais a sociedade questiona a informação que recebe, melhor tende a ser os serviços informativos, melhor tende a ser o jornalismo nessa sociedade. Nós precisamos olhar com mais atenção e tomar cuidado para não ter a instituição do Estado ou do governo tomando partido exageradamente nesse debate. O Estado é o lado forte. O Estado não é vítima. A vítima, em geral, na história das democracias, é a imprensa. Quem precisa ser protegida é a imprensa.”

A questão decorrente daí é como grandes conglomerados privados de comunicação, capazes de influenciar o opinião de seu público, devem responder por possíveis desvios de conduta. Mas isso não deve ficar submetido aos gostos e às predileções políticas do governatante de plantão. Essa discussão deve ser amadurecida pela sociedade, pela imprensa (pública, estatal e privada) e pelos representantes do Estado. Sem melindres.

Em seus blogs, André Deak e Rodrigo Savazoni também destacaram trechos da entrevista. Vale conferir!


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