Textos categorizados 'liberdade'

Liberdade não está condicionada à perfeição

Para quem já não leu, vale a referência. Aqui está um link para o segundo texto da série de quatro artigos que Eugênio Bucci escreve para o Observatório da Imprensa. No abre de seu texto, ele argumenta o que, na minha visão, é o ovo da serpente daqueles que defendem um “jornalismo” que seja o contraponto da “visão” da grande mídia comercial. Sobretudo, os governantes que cogitam, mesmo que em seu íntimo, construir uma mídia que sirva de porta-voz para suas versões épicas de política. Além de apontarem, incansavelmente, os erros como forma de desligitimação da imprensa. E disso se convencem se tratar de democracia para a mídia.

Não há razoabilidade, como já ficou demonstrado [ver "A missão de servir ao cidadão e vigiar o poder"] em supor que a liberdade de imprensa deva se condicionar à inexistência de erros. Ela não é uma recompensa que se outorgue aos veículos que acertam ou um privilégio que se interdite aos que erram; é, sim, premissa inegociável para a prática do jornalismo, seja ele bom ou ruim. A ninguém no governo pode caber a tarefa (ou a veleidade) de melhorar (ou de pretender melhorar) o nível do jornalismo. Isso não faz sentido.

Imprensa, liberdade e independência

Aproveito para registrar a última entrevista concedida pelo Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás, para o site Observatório da Imprensa. O acúmulo teórico e prático dele o faz hoje o principal pensador da comunicação pública no país, com uma maturidade sobre os conceitos de liberdade de imprensa, ética jornalística e independência difícil de encontrar no Brasil. Entre os destaques dessa entrevista está o conceito de que o jornalismo deve se manter livre dos governos.

(…) o primeiro dever do jornalismo é ser livre. Ser explicitamente livre. Para começar, ele precisa ser livre do governo, qualquer governo. Nessa matéria, chamo atenção para um ponto sobre o qual temos falado pouco: o grande volume de verbas públicas que vão parar nos veículos comerciais como anúncios publicitários é um fator preocupante. Nos órgãos de imprensa mais vulneráveis, esse dinheiro – ou a sua ausência – pode ser uma pressão sobre a linha editorial. Esses recursos tendem a congregar um conjunto de veículos que se afinam em demasia com as causas dos governos – federal, estaduais ou municipais –, o que é algo tradicional no Brasil e não é nada saudável.

De minha parte, eu me sinto mais tranqüilo com uma imprensa que às vezes pode até cometer excessos, mas os comete com franca independência em relação aos governos, do que me sentiria com uma imprensa toda ajuizada que sempre apoiasse os governantes. Claro que a imprensa deve ser elegante, equilibrada, justa, objetiva etc., ao menos do meu ponto de vista, mas seu primeiro dever é ser independente. Financeira e editorialmente. Se alguns veículos querem bancar partidos políticos, desde que não o façam com dinheiro público, e desde que não sejam objeto de concessão pública, como é o caso das emissoras de rádio e TV, estão no seu direito. Se carregarem nas tintas, se distorcerem, cedo ou tarde perderão credibilidade e pagarão por isso.

Esse critério rebate no centro da discussão da liberdade de imprensa. Quase um ano atrás, quando ainda era presidente da Radiobrás e o debate sobre imprensa voltou à baila após o segundo turno das eleições, Bucci também deu uma entrevista semelhante ao Observatório. Ressaltou que a imprensa é o lado fraco diante da potência do Estado. “O Estado não é vítima”.

Eu acho fundamental que os veículos de imprensa, o jornalismo seja debatido. Acho mesmo, que é dever de vários representantes de organizações sociais, de partidos, de instituições criticarem e discutirem os meios de comunicação. Discutirem o que acontece no jornal, na revista, na TV. Quanto mais a sociedade questiona a informação que recebe, melhor tende a ser os serviços informativos, melhor tende a ser o jornalismo nessa sociedade. Nós precisamos olhar com mais atenção e tomar cuidado para não ter a instituição do Estado ou do governo tomando partido exageradamente nesse debate. O Estado é o lado forte. O Estado não é vítima. A vítima, em geral, na história das democracias, é a imprensa. Quem precisa ser protegida é a imprensa.”

A questão decorrente daí é como grandes conglomerados privados de comunicação, capazes de influenciar o opinião de seu público, devem responder por possíveis desvios de conduta. Mas isso não deve ficar submetido aos gostos e às predileções políticas do governatante de plantão. Essa discussão deve ser amadurecida pela sociedade, pela imprensa (pública, estatal e privada) e pelos representantes do Estado. Sem melindres.

Em seus blogs, André Deak e Rodrigo Savazoni também destacaram trechos da entrevista. Vale conferir!


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