Textos categorizados 'mulheres'

Haiti é machista na vida política

No país caribenho, um dado sobre a vida política mostra a desigualdade de gênero. O Haiti tem apenas 4,1% de seu Parlamento constituído por mulheres. São 4 legisladoras ao lado de 94 homens. Essa proporção coloca o Haiti na 125º posição de uma lista de 192 países pesquisados pela União Interparlamentar, entidade com sede em Genebra.

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Uma reportagem da BBC sobre o estudo relata que apenas 20 países em todo o mundo têm mais de 30% de mulheres entre seus deputados. Na América Latina, destaque para a participação das mulheres na vida política da Argentina (40%), Costa Rica (37%) e Cuba (36%).

Este post sai um pouco atrasado em relação ao Dia Internacional da Mulher, mas vale o registro. Deixo o link de uma galeria de fotos do site oficial da força de paz da ONU no Haiti (Minustah) em comemoração ao dia internacional. Detalhe: não existe uma foto sobre a vida política das mulheres haitianas.

Obs.: O dado sobre o Haiti na reportagem da BBC está errado pois conferi no estudo original. Eles citam que o Haiti tem 11,1% de participação de mulheres, quando o dado correto é 4,1%. Se fosse como eles dizem, a situação haitiana estaria melhor que o próprio Brasil, hoje com 9% de mulheres no Parlamento.

Soldados da ONU e o abuso sexual

A história desse post começa em agosto de 2004, às vésperas do jogo entre a seleção brasileira e o time haitiano no que ficou conhecido como “jogo da paz”. Era minha primeira viagem ao Haiti. Entre minhas pautas estava a checagem da missão diante de seus objetivos (desarmamento, manutenção da segurança, organizar novas eleições etc). E também checar uma denúncia de tropas da ONU teriam abusado sexualmente de uma adolescente no Haiti.

Era uma notícia vaga, que envolveria soldados sul-americanos. Não havia fonte identificada, nem acusado formal da denúncia. Dificilmente conseguiria achar, em sete dias de trabalho, o rastro dessa história. Mas tentei. Fui checar se havia alguma investigação formal na ONU. Disseram que não. Fui checar numa delegacia de polícia. Nem sinal. Tentei contatar uma ONG de direitos da mulher. Disseram que ouviram falar, não tinham informações detalhadas. Não tinha notícia.

Nas posteriores visitas, confirmei que os soldados brasileiros saíam do Haiti e passeavam pela República Dominicana, onde, quem quisesse, podia “aliviar” a distância de casa e das mulheres brasileiras com a prostituição caribena. Soube também que havia uma adolescente de 16 anos, cuja denúncia de abuso sexual foi investigada três vezes pela ONU. Foi arquivada por “falta de provas”. A BBC noticiou o fato. Mas nenhuma notícia foi tão clara, arrebatadora e desmoralizante quando a deste mês de novembro.

Cento e oito capacetes-azuis do Sri Lanka foram repatriados após terem sido investigados por terem “pagado” por sexo no Haiti. O comunicado da ONU sobre o assunto é de uma burocracia diletante. O jornal The New York Times publicou as falas da porta-voz do secretário-geral das Nações Unidas. Mas ninguém avançou em saber quais são as punições pela ONU e pela legislação do Sri Lanka. Procurar as haitianas envolvidas então, nem pensar.

Ninguém citou, por exemplo, que as leis do Sri Lanka podem condenar os soldados a trabalho forçado como pena máxima. No Brasil, só o jornal Folha de S.Paulo registrou o caso com uma matéria produzida a partir de agências internacionais. O silêncio da imprensa brasileira e sul-americana sobre esse caso é sinal de que ainda pouca gente acompanha a situação do Haiti, a não ser pelo olhar das tropas militares. Reproduzimos assim uma visão elitista no jeito de fazer jornalismo.


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