Textos categorizados 'negros'

Mais da revolução de São Domingos

Estão na lista dos mais lidos do blog Left ~ Write, de Aniket Alam, três posts (1, 2, 3) sobre a Revolução de São Domingos, o fato histórico que culminou com a independência do Haiti. Escrevi também sobre isso para a História Viva, baseado na análise de C.L.R. James, em “Os Jacobinos Negros” (The Black Jacobins), publicado no Brasil pela editora Boitempo.

Vale a pena ver como o assunto anda viajando pela net. No primeiro post, o autor usa como epígrafes os versos de “Redemption Song”, do Bob Marley, a descrição do tráfico negreiro. No século 16, o comércio de escravos tinha no Haiti o seu principal alvo lucrativo para a burguesia francesa. A independência começou justamente pela revolta dos negros.

Realismo fantástico e a independência do Haiti

A independência do Haiti é um capítulo sensacional da história latino-americana. Primeiro porque foi comandada a partir de uma rebelião de escravos africanos em um continente de países escravocratas. Segundo porque gerou a primeira república negra das Américas. Terceiro, o mais forte e sentimental deles, é que esse fato advém de um sofrimento brutal dos africanos trazidos à força nos porões dos navios negreiros.

Quarto é que existe uma certa mística em torno desse fato e sua evolução, o que venho descobrindo nas pesquisas que tenho feito ultimamente para uma reportagem. Deixo mais detalhes para a própria matéria, mas adianto uma história haitiana que ajudou a inaugura a narrativa latino-americana do realismo fantástico, na qual a realidade se misturava com o absurdo para captar uma nova essência.

É o caso de uma revolta liderada por um quilombola, Mackandal, que fugiu para as montanhas haitianas e organizou uma resistência contra os brancos escravocratas produtores de cana-de-açúcar. Isso antes do grande movimento independentista influenciado pela Revolução Francesa e liderado por Toussaint L’Overture em fins do século 18.

Mackandal era visionário, grande orador e se dizia imortal. Tinha seguidores aos montes. Planejou envenenar a água das casas dos brancos para libertar os escravos. Essa história foi mote para o livro do escritor cubano Alejo Carpentier, “O reino deste mundo”, um dos percussores do gênero fantástico.

Noutro livro, “Os jacobinos negros”, de C.L.R. James, encontrei uma boa referência sobre o fato. Está na página 34:

Mackandal concebeu o audacioso plano de unir os negros e expulsar os brancos da colônia. Era um negro vindo da Guiné, que tinha sido escravo no distrito de Limbé, o qual mais tarde se tornaria um dos grandes centros da revolução. Mackandal era um orador, na opinião de um branco contemporâneo, e com a mesma eloqüência dos oradores europeus daqueles dias, diferente apenas na força e no vigor, em que lhes era superior. Destemido, embora maneta devido a um acidente, tinha uma fortaleza de espríto que sabia preservar mesmo em meio à mais cruel das torturas. Ele dizia poder prever o futuro; como Maomé, teve revelações; convenceu seus seguidores de que era imortal e exercia sobre eles um tal domínio que consideravam uma honra servi-lo de joelhos. (…)

Durante seis anos, construiu sua organização, e ele e seus seguidores envenenavam não apenas brancos mas membros desobedientes do próprio bando. Então, planejou que em determinado dia a água de todas as casas na capital da província seria envenenada, e os brancos seriam atacados durante as suas convulsões e angústias de morte. (…) A sua temeridade foi a causa de sua queda. Um dia, ele foi até uma fazenda, embebedou-se e foi traído. Capturado, foi queimado vivo. A revolta de Mackandal não se realizou e foi o único indício de uma tentativa de revolta organizada durante os cem anos que precederam a Revolução Francesa.

Nação Palmares, hipervídeo de um povo

A Agência Brasil acabou de publicar o último especial multimídia que tínhamos quase finalizado antes de sair de lá há cerca de um mês. Foi ao mesmo tempo do Bon Bagay Haiti. É um hipervídeo, conceito a partir do qual o internauta pode navegar dentro de um vídeo principal. E clicar em outros vídeos, links e textos. É como ir abrindo pastas. Ou, na linguagem do Sérgio Gomes, jornalistão das antigas e de espírito jovem na Oboré, seria como ler um livro “com e sem” notas de rodapé. Ou o vídeo dentro do vídeo, algo assim - como ele me falou andando no centro de São Paulo.

quilombolas

Mais do que a filosofia e a inovação da linguagem multimídia, o conteúdo desse especial busca mostrar a luta dos quilombolas. Sem distorções. A grande reportagem foi elaborada por vários profissionais. A apuração in loco foi do Spensy Pimentel, o roteiro e edição foram trabalhados pelo André Deak e Rodrigo Savazoni. A Juliana Cézar Nunes também ajudou. Design e programação com Yasodara Córdova e Mário Marco. A trilha sonora está ótima. Nação Zumbi abre o especial.

Atualizaçã0 (26/11/2007): o André Deak fez um ótimo making off do trabalho no blog dele. O tamanho da descrição é diretamente proporcional ao trabalho dispensado. Até eu tive que refinar a edição de dois ou três vídeos. Mas nem se comprara ao trabalho dos demais.

Atualizaçã0 (05/12/2007): o Rodrigo Savazoni escreveu ontem a genealogia do Nação Palmares. Ou melhor, como foi a busca por novos formatos de narrativo no período em que estivemos na Agência Brasil. Vale para acompanhar a evolução do material multimídia produzido.


Categorias

Arquivos

O conteúdo deste blog pode ser copiado desde que citada a fonte

Flickr Photos

DSC01511

DSC01503

DSC01498

DSC01904

DSC01852

DSC01849

DSC01857

DSC01924

DSC01916

festabiondi7

More Photos