“Enquanto milhões de haitianos passam fome, conteiners cheios de comida ficam empilhados nos portos do país, porque a burocracia do governo - deixando toneladas de feijão, arroz e outros grãos na podridão sob um sol escandante ou para serem devoradas por vermes”.
Assim começa a reportagem do Washington Post, que conta o desperdício de comida no país mais pobre das Américas, onde milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. Na foto baixo, homem limpa restos de grãos podres no porto de Cap-Haitien, o segundo maior do país.
Mais de um ano depois da ocupação militar por soldados das Nações Unidas em Cité Soleil começa a ser anunciado os investimentos em saneamento, pavimentação e melhoria dos espaços públicos. Era o que relatamos no vídeo Bon Bagay Haiti, publicado na Agência Brasil.
Agora é esperar para ver o tamanho desses “projetos”, que, segundo a ONU, custarão US$ 500 mil e beneficiarão 7 mil pessoas. Sinceramente, é muito pouco para tamanha necessidade. Não há informação se o governo haitiano também investirá recursos lá.
O post do Leonardo Sakamoto comenta a situação atual do Timor Leste. Aproveito o gancho para indicar onde acho que a realidade timorense se assemelha com a do Haiti. Numa análise mais abrangente, é mais fácil encontrar diferenças, mas ambos países viveram recentes missões de paz da ONU. Os dois passam por situações de construção de estruturas mínimas de funcionamento da democracia. E Haiti e Timor também são países extremamente pobres com recorrentes problemas de violência e instabilidade política.
A pergunta é: por que será que o atual modelo de missão da ONU não dá conta de resolver de maneira mais permanente os problemas de países subdesenvolvidos? A diplomacia está longe de conseguir articular países em torno de interesses comuns, como a paz e o desenvolvimento sustetável. As relações internacionais estão à mercê dos interesses econômicos e políticos. A ONU reflete isso. O Haiti e o Timor Leste também. No modelo atual, podem melhorar somente em rompantes de solidariedade.
Como país mais pobre das Américas, o cotidiano do Haiti para grande parte das famílias é uma eterna busca por comida. Escrevi antes aqui sobre a reportagem “hit” sobre os biscoitos de terra, outros, como o Haiti Inovation, também repercutiram. Mas essa é uma pequena amostra do panorama de insegurança alimentar. O Haiti possui dificuldades para a garantia da alimentação das pessoas. Seja na capital Porto Príncipe ou no interior do país com o campesinato.
O interior do país foi um bom produtor agrícola, principalmente arroz. Sua produção foi esmagada com as suscessivas pressões dos norte-americanos. De exportador de arroz virou importador. A produção agrícola familiar foi acabando gradativamente desde o final da década de 80. Atualmente, a maioria dos produtos básicos são importados: carne bovina, arroz, feijão e trigo.
Hoje, li no site do Haitianalysis.com uma feroz crítica ao “rótulo” que pegou na imprensa mundial sobre a melhoria da situação dos haitianos pobres após a missão de paz. O editorial, redigido por Wadner Pierre, cita essa busca por comida como o mais brutal efeito da desigualdade social. Isso porque o custo de vida tem aumentado e os programas sociais continuam inexistindo.
Dizem-nos mais e mais que as coisas estão melhorando, que as Nações Unidas estão aqui, mas isto é hipocrisia. A situação está pior é claro para aqueles que moram nas favelas. (…) Vá até os bairros pobres ver onde a pobreza é grande e dizer ao mundo o que está acontecendo.É nosso dever.É uma necessidade da verdade.Temos de dizer às pessoas a verdade.
Não sei direito quem recomeçou, mas acho que foi o The New York Times. Alguém deve ter feito isso antes também. Não sei, não procurei. Mas depois do jornalão norte-americano, dezenas de jornalistas fizeram esta reportagem - mostrar uma “comida” haitiana chamada “té”, um biscoito feito com terra colhida na região de Hinche, manteiga, água e sal. Isso mesmo, uma espécie de cookie de lama. O assunto virou coqueluche da imprensa que foi até o Haiti nos últimos quatro anos.
Na última semana, recebi em meu leitor de RSS uma centena de entradas em blogs e sites reproduzindo uma notícia da Associated Press. Virou hit pelos blogs. Veja o resultado da busca do Technorati. Em 2006, quando eu estava na Agência Brasil, fizemos uma pequena descrição da iguaria um dia depois de uma equipe do SBT. As fotos abaixo são do fotógrafo Marcello Casal Jr.
Os biscoitos são uma forma de complemento precário da alimentação para muita gente pobre, mas também é moda para mulheres grávidas, carentes ou não, com o argumento de aumentar o ferro no sangue. O risco maior é a cólera, porque a água da massa não é tratada. Eu preferi não experimentar.
O trânsito de Porto Príncipe, no Haiti, é realmente caótico. Já demorei mais de 2 horas para fazer um trecho de três quilômetros. Mas o engraçado é como isso, para alguns, serve de indicador de pobreza. É verdade… falo sério!
Li hoje um texto do site Zenit que falava sobre o balanço da organização internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). Para citar um exemplo de pobreza e necessidade, Xavier Legorreta elencou que em toda sua viagem viu apenas quatro semáforos funcionando no Haiti.
Voltei ao topo da página e li um slogan do site Zenit: “O mundo visto de Roma”, certamente em alusão à sede do Vaticano. Aí me perguntei: Quantos semáforos há em Roma?
Talvez eles possam doar faróis para o Haiti, mas podem ter certeza que não vão ajudar um milímetro na situação do povo pobre caribenho. Talvez da elite haitiana, que deve enxergar a coisa por este mesmo ângulo.
Aqui embaixo deixo a foto do colega Spensy Pimentel com uma rua de Cité Soleil.
Esta é a história da produção de um web-documentário sobre o Haiti. Publicado nesta semana pela Agência Brasil, o vídeo foi a concretização de um processo de pouco mais de um mês - entre sua idéia, apuração, roteiro e edição. Ele nasce dentro de nosso conceito de linguagem multimídia trabalhado na Radiobrás, segundo o qual os diversos recursos midiáticos devem responder à necessidade de contar uma história. E não o inverso. Nada melhor para isso do que a internet. Sobretudo com a execução de uma equipe brilhante: André Deak, editor-executivo multimídia; Rodrigo Savazoni, editor-chefe; Marcello Casal Jr., editor de fotografia; Yasodara Córdova, editora de arte; e Mário Marco Machado, nosso homem-programadô.
Menino olhando para nós lá em Ti Haiti, o miolo de Cité Soleil
A idéia
Nossa idéia surgiu na saleta do Rodrigo Savazoni após chegar a possibilidade de eu ir pela quarta vez ao Haiti, o país onde uma missão da ONU tenta conter uma crise política e social. Rodrigo e André queriam algo de impacto estético para contarmos histórias desse povo, que há quase quatro anos freqüenta as páginas dos jornais brasileiros, mas ainda são desconhecidos. E uma idéia brotou a partir de nossa observação do MediaStorm. Fazer um documentário, entremeando fotos preto-e-branco e vídeos coloridos. Sem off, sem passagem. Somente a edição de depoimentos dos haitianos. “Precisamos de algo novo no Brasil. E só com haitianos falando”, dizia Rodrigo.
O objetivo também era potencializar a ação de especiais da Agência Brasil feitos com audiovisual, uma tendência que tem dominado a nata do conteúdo jornalístico dos grandes sites internacionais, como o do Washington Post. “Trata-se da utilização, na internet, das linguagens consagradas pela fotografia e pela televisão. Como há um texto de abertura, que serve ao mesmo tempo de sinopse e introdução, pode-se dizer que também a liguagem de texto contribui para essa reportagem multimídia, multiplataforma”, explica conceitualmente o Deak. Aliás, sobre o jornalismo multimídia ele escreve muito. É uma referência para o assunto hoje.
O cronograma da viagem era apertado. Seria o acompanhamento de uma comitiva da primeira visita do ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao Haiti. Com ele, os comandantes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Na pauta, uma reunião importante de todos os ministros sul-americanos da Defesa que possuem tropas militares no Haiti. Eu teria que “fugir” em algum momento da cobertura de autoridades para buscar esse material. Iríamos com uma equipe multimídia: um fotógrafo, um cinegrafista e um repórter.
Mulher carrega sacos de comida, enquanto passa por ponte de fiscalização das tropas brasileiras que integram a missão da ONU Apuração
Decolamos em um avião da Força Aérea Brasileira de Brasília. Na escala em Boa Vista (RR) não pudemos seguir. O furacão Félix passava. O centro dele era exatamente na nossa rota até o aeroporto Toussaint Loverture, em Porto Príncipe. Tivemos que pernoitar lá. Com isso, o cronograma foi fatiado. Só teríamos um dia e meio de apuração no Haiti, incluindo a cobertura das autoridades. Achava que era o fim do especial. Contatei meu guia no Haiti e avisei dos imprevistos, numa tentativa de adiar nossa apuração em Cité Soleil. O guia é um haitiano de classe média alta lá. Tem casa, trabalho bom, caminhonete tracionada e falava fluentemente inglês, espanhol, francês e creoule.
Mesmo atrasado, combinei com ele que teríamos metade de uma tarde para fazer nossa apuração. Mataria a cobertura do Jobim na sede da Minustah, onde o “prejuízo” de informação seria menor. Assim foi. Saímos do hotel, Marcello Casal Jr., Oswaldo Alves e eu. Seguimos para Cité Soleil. Entramos pela rua principal e paramos em Soleil 6. Lá conversamos com Mário Sejour, um ajudante de obras afixionado pelo Brasil. Seu primeiro filho é uma homenagem ao atacante da Copa de 94: Romário. Foi elogioso à ação das tropas, mas disse que o problema deles não era só segurança. Era “trabalho, saúde, escola”, elencou. Ao seu redor um grupo de 15 pessoas se amontava para ver a “filmagem” dos brasileiros.
Depois, fomos para Ti Haiti, pequeno Haiti em creoule, local bem pobre de lá. Aí conversamos com dona Enel, uma senhora que vendia salgados nas vielas para pagar a escola de um de seus nove filhos. Era uma espécie de fogazza recheada com repolho. Custava 5 gourdes, na moeda local. Ela reclamava da falta de ocupação para os jovens. Só lembrando que no Haiti, mais da metade dos 8,5 milhões de habitantes tem menos de 20 anos de idade. Uma população jovem. Na maioria, também sem escola ou emprego. Na seqüência, só com um gravador de MP3 gravei o líder comunitário Jean, explicando um trabalho de formiga que faz por lá. Também comprei cd’s com músicas haitianas para servir como BGs do especial.
Mário Sejour, ajudante de obras em uma empresa da zona portuária
Roteiro
Na volta, Marcello Casal Jr. fez uma edição sobre o material fotográfico. Era primoroso. Ganhamos esteticamente o especial ali, com aquelas fotos. Oswaldo Alves separou os 20 minutos de vídeo, gravados em uma câmera PD. Aí entrava o meu trabalho de roteirização. Como a base eram os depoimentos, precisava fazer a transcrição. Foi a luta maior. Eu havia entendido o sentido geral dos depoimentos por intermédio de meu intérprete, e para o inglês. Mas precisava da transcrição ipsis literis. Depois de uma semana procurando alguém para ajudar, inclusive na Embaixada do Haiti no Brasil, conheci duas haitianas que moram em Brasília e falam creoule. Foi a salvação.
Ficamos quatro horas transcrevendo tudo para usar nas legendas do especial. A partir dali, fiz uma sugestão de ordem das fotos com os três depoimentos em seqüência, divididos em duas sonoras cada. Então, o Rodrigo Savazoni pegou o original. E em 30 minutos fez um trabalho primoroso de misturar as “cartas”. Misturou a ordem das sonoras e deu uma seqüência lógica aos depoimentos e às cartelas - os textos que aparecem sobre o fundo preto no vídeo. Como exemplo, coloco aqui um trechinho original do roteiro.
(…)
BG - FADE IN - CD RASIN KREYOL – MÚSICA 12
FOTOS
CARTELA: “250 mil pessoas vivem na maior favela do mais pobre país das Américas”
FOTOS
BG - FADE OUT
SONORA 1 - ARQUIVO MOVIE 004 - 00″19′ a 01″20′ - Duração 00″59′
00″19′ - “Eu sou Mário Sejour, estou vivendo em Cité Soleil, tenho quatro filhos, tenho 27 anos, eu vou ao trabalho, tenho esposa e filhos”
00″35″ - “Aliás, estou muito feliz porque todas vezes que os jornalistas vêm eles não entram dentro de Cité Soleil para fazer o que vocês estão fazendo. Estou muito feliz. Sempre dizem que vão vir e nunca entram em Cité Soleil” (…)
Garoto de Ti Haiti. Para nós o símbolo do termo “bon bagay”.
Ele me falava assim: “Ei, you. Give me chocolá”
Edição
Após o roteiro, Deak e Yaso definiram que o especial teria uma moldura máxima de 750 pixels por 500 pixels. Seria uma caixa preta com design minimalista para destacar a estética das fotos preto-e-branco e dos vídeos coloridos. O título do especial seria “Bon bagay Haiti, histórias de Cité Soleil”, uma sugestão do Spensy Pimentel. Escolhemos uma foto dos pés de dona Enel, ao lado das filhas. O chão de terra batida tinha uma área limpa para escrevermos o título em uma fonte leve e alaranjada. Paralelamente, o vídeo começou a ser montado pelo Deak no editor de vídeo Premier. Um trabalho chato em computadores de pouca memória. A programação foi feita pela Yaso e Mário Marco em action script.
Acabamos tudo na terça-feira (16), com a revisão das legendas. Aquela idéia inicial nascia depois de muitos obstáculos, com pequenas chances de ser concluída diante das condições de execução. O final está lá na Agência Brasil. E, posso dizer, este é meu último trabalho de reportagem na agência. Nesses quatro anos, redimensionamos editorialmente e esteticamente esse veículo digital da Radiobrás. Com sentimento de dever cumprido. Não deixa de ser um presente para todos os que acreditaram e fizeram parte desse processo.
Bon bagay!
Ah, o André Deak colocou no You Tube também. O embed tá aqui.
Neste blog também vou postar coisas de minhas apurações sobre a situação do Haiti, país mais pobre das Américas onde uma missão da ONU atua desde de junho de 2004. Já escrevi sobre o tema para a Agência Brasil, pela qual viajei quatro vezes desde o famoso jogo da seleção brasileira com o time haitiano; para a revista Democracia Viva, do Ibase; para a revista Rolling Stone, edição brasileira; entre outros veículos.
O argumento primeiro da defesa da missão da ONU, após a crise de fevereiro de 2004, era o de que a situação ficaria pior se não houvesse o envio de tropas. Isso desconsidera o movimento armado anterior, e suas suspeitas de ilegalidades, que provocou a queda de Jean Bertrand Aristide. Embora não haja provas, deixo registrado que existem denúncias de que o grupo armado que marchou da República Dominicana contra Aristide foi financiado pelos Estados Unidos.
O segundo argumento, e repetido subliminarmente, era o de que, caso os “bons” sul-americanos não estivessem no Haiti, os “imperialistas” norte-americanos estariam. Um auto-elogio ideológico, mas que não se sustentava sem um planejamento alternativo para pacificar e criar condições soberanas para um país explorado e ocupado. O Conselho de Segurança da ONU, como todo espaço diplomático, é resultado direto das propostas e dos interesses de seus membros.
Isso significa que interesses maiores - de paz, soberania e igualdade - podem ou não ser preservados em cada decisão. Depende da atuação de seus membros. Então, estaria o Brasil interessado em garantir uma cadeira permanente no conselho e, por isso, teria aceitado a participação no Haiti? Ou seja, em nome de ter direito a veto e voto nas decisões sobre os conflitos armados teríamos ido com tropas para o Caribe, sem um planejamento de médio prazo?
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