Mais que dois viajantes

por Aloisio Milani e Xandra Stefanel

Chico, 31 anos, enxerga o pai, de 66, como inspiração cotidiana (foto © Jailton Garcia)

Os dois acordam ao som dos passarinhos. Para chegar aonde vivem pai e filho, é preciso subir a Serra da Cantareira, contornar as curvas da Estrada da Roseira e vencer um emaranhado de ladeiras. A casa de Chico Teixeira tem uma varanda ampla, com vista para um quintal gramado e um lago. Na porta da cozinha, o pai e vizinho, Renato, acende um cigarrinho de palha. O clima de roça entra e instala-se no sofá. Ao violão, cantarolam Pai e Filho, versão do hit de Cat Stevens que está no disco recém-lançado de Chico Teixeira, Mais Que o Viajante. Renato inicia suavemente a letra que aconselha o filho a ficar em casa. A resposta de Chico vem em voz grave. A música é um diálogo sobre o filho indo embora. “Isso toca as pessoas porque são valores folk, são coisas do povo”, diz Renato, que é pai de quatro filhos e avô de seis netos.

Ele nasceu em Santos e passou a infância em Taubaté. Tornou-se compositor e frequentou festivais da Record cantado por Gal Costa, Roberto Carlos e Elis Regina. Identificou-se com a música caipira. Também compôs – e ainda compõe – jingles inesquecíveis. Gosta de lembrar a estética inovadora criada com o parceiro Sérgio Mineiro no Grupo Água. O arranjo para a música Romaria, por exemplo, surpreendeu Elis Regina, que decidiu-gravá-la com as mesmas nuances­. “O conceito era pegar o que o povo diz e transformar em música.”

Chico, 31 anos, enxerga o pai, de 66, como inspiração cotidiana. Conviveu desde menino com seus muitos parceiros, entre eles Zé Geraldo, Pena Branca, Zé Gomes. Em seu segundo disco, Chico gravou composições próprias e desenterrou a saborosa Saudade Danada, de Elpídio dos Santos, compositor das trilhas dos filmes de Mazzaropi. O álbum conta ainda com Dominguinhos, Gabriel Sater e o próprio filho de 5 anos, Antonio. Nesta entrevista, pai e filho falam sobre música, inspirações, jingles, pirataria e os novos projetos.

Chico e Renato Teixeira (© Jailton Garcia)

Quando o Chico começou a tocar, ele foi na fazenda do Almir Sater. Foi passar 15 dias e ficou dois meses. Quando acabou o colégio, disse: “Pai, meu negócio é música, não vou pra faculdade”. E eu: “Tá bom”. Faculdade de Música, jamais!

Vocês estão juntos em diferentes turnês. Shows­ do DVD Amizade Sincera, apresentação solo do Renato e o disco do Chico. Como conciliar tantos trabalhos e conquistar o público?
Renato Teixeira – Nosso público não está necessariamente na capital. Está no interior. A atividade cultural de São Paulo é fortíssima, mas é muito concentrada em determinados tipos de público.
Chico Teixeira –Tem vários guetos musicais em São Paulo. O rock underground, por exemplo, tem uma cena forte, que funciona. Mas é diferente quando falamos da música que vem do interior e emociona…
Renato – Até 1970, a música brasileira era bem dividida. Bossa nova, samba, nordestina, boleros. E a música caipira estava encerrando um ciclo genial. Nesse momento, o Sérgio Reis, a dupla Léo Canhoto e Robertinho e eu começamos a mexer com essa música. Minha influência do caipira vem de Monteiro Lobato, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Guimarães Rosa. E Léo Canhoto e Robertinho mostraram que a dupla não precisava ser só aquele modelo tradicional, que podia ser o que vemos e ouvimos hoje com Chitãozinho e Xororó. Aí o terreno ficou fértil. Foi quando passou a vir o lastro para esse nosso lado: Inezita (Barroso), Rolando Boldrin, Pena Branca e Xavantinho…

Isso depois de Elis gravar Romaria, em 1977?
Renato – Foi. Isso é uma conquista, não é da noite para o dia, demora anos. Eu já tinha RomariaTocando em FrenteAmanheceu, Peguei a ViolaFrete – enfim, todos os meus sucessos. Mas quando ia tocar só havia dez pessoas na plateia.

Em 1992, aquele disco histórico com Pena Branca e Xavantinho ao vivo, em Tatuí, fez muito sucesso.
Renato –  
E foi tudo na raça, na intuição, sem apoio.
Chico – Meu pai cantando Rapaz Caipira naquele disco é a resposta para aquele momento.

Você estava lá, Chico? Nos bastidores?
Chico – Eu tinha uns 11 anos. Acompanhava a movimentação toda com Pena Branca e Xavantinho em casa. Nesse show eu não estava, mas vi os ensaios. A gente morava na casa da Elis Regina e lembro uma época em que eles iam quase todo dia lá. Acompanhei desse jeito. Depois fui tocar com o Pena Branca, já com 20 e poucos anos. Em seguida, com meu pai. Em 2003 entrei pra tocar no show inteiro. Éramos eu e ele. Nos primeiros discos do meu pai, na fase mais folk, sempre havia grandes violeiros: Natan Marques, Carlão de Souza. Pensei: “Pô, vou seguir esses caras”.
Renato –  Ele começou viajando junto, passou a ajudar numa coisinha aqui, outra ali, depois tirou carteira e ajudava a guiar. Às vezes eu o convidava para entrar e cantar uma música. Quando precisou, estava pronto. Conhecia todo o processo. O violão de 12 (cordas) é um instrumento fundamental pra esse tipo de som. Conheceu o Carlão. Depois, o Natan.
Chico – Também convivi com o Zé Gomes, um cara superconceitual, tocava rabeca.
Renato – Pois é, estamos falando de músicos que estão entre os melhores do mundo. Quando o Chico começou a tocar, quando começou a sair som, ele foi na fazenda do Almir Sater. O violeiro precisa de uma base pra poder solar, e ele ficou acompanhando o Almir.
Chico – Fui passar 15 dias lá e fiquei dois meses. Foi mágico vivenciar aquilo, o som da viola caipira.
Renato Teixeira (© Jailton Garcia)

Peguei a música de Tonico e Tinoco, Vieira e Vieirinha, Tião Carreiro e Pardinho, Cascatinha e Inhana, os cults. Esses caras entravam no estúdio, ligavam um microfone pra cada um e gravavam um LP em duas horas

Então você sabia que trabalharia com música?
Chico – Saber, não sabia, mas nunca passou pela minha cabeça fazer outra coisa.
Renato –  Nem na minha. Desde que nasci a minha casa sempre foi assim, cheia de violão (mostra os violões de Chico expostos na sala). E o Chico reproduziu isso. Eu falava que queria ser arquiteto, mas por quê?   Porque música é arquitetura. Eu ia muito lá na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), assistia a aulas.
Chico – Ele até fez uma casa em Ubatuba (risos).
Renato –  Eu nunca cheguei no Chico e disse: “Você vai ser músico”. Ele vai ser o que quiser!
Chico – Tem o lance do DNA, tem até um estudo, um livro que fala sobre a cabeça do músico… Meu pai ficou fazendo música em casa, no começo dos anos 1980, que era (a época) da baixa, a Elis tinha acabado de morrer também. Foi um tempo meio frio em que ele foi fazer publicidade, nos anos 1970, comecinho dos 1980.
Renato – Eu comecei a fazer publicidade para “calibrar­”.
Chico – Ele trabalhava muito em casa, fazia trocentos jingles numa levada. E eu sempre perto. Tem fotos dele compondo e eu lá, puxando o cadarço dele. E ele casou com a minha mãe, que era apresentadora de telejornal e pianista clássica desde a infância.
Renato –  Uma coisa superengraçada tanto na música dele como na dos meus filhos (todos). Quando eles estavam brincando, a Sandra tocava a tarde toda. Pianista clássico estuda muito.
Chico – Enlouquecedor (risos).
Renato –  Eles jogavam bola ouvindo aquele piano tocar estudos. Impressionante como essa prática acabou influenciando a música deles.
Chico – Com certeza.
Renato – Tanto que, quando o Chico se formou no colégio, ele chegou pra mim e disse: “Pai, meu negócio é música, eu não vou pra faculdade”. E eu disse: “Tá bom”. Faculdade de Música, jamais!
Chico – Ah, é. Teve um período em que eu até pensei, mas o Zé Gomes, nesses jogos de xadrez, dizia: “Ô, rapaz, não vai fazer aula! Você vai sair padronizado. Vai demorar mais um pouco, mas você chega lá”. O Yamandu Costa ficava estudando direto com o Zé Gomes, o Almir também…

Quantos filhos você tem, Renato?
Chico – Quatro. A Isabel, Bel Teixeira, que é uma grande atriz, ganhou Prêmio Shell…
Renato –  A Antonia, que é música também, mas mexe com vídeo. É uma grande editora de vídeo.
Chico – Eu e o João. Acho que é isso, né, paizão?

Chico Teixeira (© Jailton Garcia)

Meu pai ficou fazendo música em casa, no começo dos anos 1980, época da baixa. Fazia trocentos jingles de publicidade numa levada. E eu sempre perto. Tem fotos dele compondo e eu lá, puxando o cadarço dele

Poderíamos comparar o trabalho independente do Renato, no Grupo Água, e o seu, Chico, agora?
Renato – Aí tem uma sequência interessante. Eu peguei a música caipira das duplas, Tonico e Tinoco, Vieira e Vieirinha, Tião Carreiro e Pardinho, Cascatinha e Inhana, as duplas que eu gostava, os cults – porque já tinha os apeladores também. Esses caras entravam no estúdio, ligavam um microfone pra cada um, violão, e gravavam LP em duas horas. E, quando o ciclo se cumpriu, como é que a gente releu isso? Montamos o Água, que hoje considero uma das bandas mais importantes da história da música brasileira. Viemos com um acústico pesado, que acabou jogando a gente pro conceito folk – que na verdade é o princípio da música popular. Até em 1700, a música era medieval, aquela coisa renascentista, com cravos e alaúdes… Aí um desses músicos um dia saiu para passear no campo e viu os caras capinando e cantando aqueles cantos de trabalho. Viu as lavadeiras lavando roupa e cantando. Ele ficou prestando atenção, decorou e botou os instrumentos em cima. Aí o cara disse: “Isso é folk, essa é a música do povo, harmonizada por músicos”. Você pega o que o povo diz e pensa e transforma em música. Romaria, por exemplo. Baden e Vinicius são absolutamente folk. O samba é totalmente folk. Noel Rosa!
Chico – Você pega Tocando em Frente, é uma música que pode mudar sua vida.

Naquela época o Água já se considerava folk?
Renato – A gente não tinha essa consciência.
Chico – Eu vejo nitidamente que a sonoridade do Almir vem daí.
Renato – O Almir estava estudando Direito no Rio e viu o Água.
Chico – Aí mudou a vida do cara.
Renato – Ele viu um cara tocar viola, se interessou e comprou a viola. “É isso o que eu quero”, disse. Uma coisa foi puxando a outra. Acho que o trabalho dessa meninada, do Chico, do Gabriel, filho do Almir, da Nô Stopa, filha do Zé Geraldo – que é folk total –, vai fazer o galo cantar.

Os filhos também são amigos, não?
Chico – Sim. E o Zé Geraldo também, direto a gente faz comida, janta, eu vou na casa dele…

Essa Cantareira está ocupada!
Renato – Tem músico pra todo e qualquer lado.
Chico – Você toca o sino e junta uma banda.

Uma coisa do disco novo remete aos dois: o Elpídio dos Santos. Essa música de Taubaté e São Luiz do Paraitinga, ali perto de onde o Renato passou a infância.
Renato – O Elpídio frequentava a casa da nossa família em Ubatuba. Ele e o Adolfinho são músicos muito parecidos, todos semiclássicos.
Chico – Eu fui descobrir o Elpídio na minha adolescência, indo para Ubatuba. Tinha uma parada que era tradicional em São Luiz. Quando comecei a viajar sozinho com os amigos, eu ia lá. Acabei encontrando os filhos do Elpídio, o Negão, grande amigo meu. Fui conhecendo coisas belíssimas! Ele era um músico absoluto, de ouvido absoluto, que escrevia tudo e frequentava a casa dos parentes em Ubatuba. Rolava esse intercâmbio. Eu me aproximei do Negão e, no centenário do Elpídio, no ano passado, fizeram um projeto superbonito em comemoração e me convidaram pra cantar Saudade Danada. Fiquei meio surpreso, mas a música caiu no meu colo. Eu gravei e coloquei no show do Renatão.
Renato – Mas nosso grande momento no palco é a música do Cat Stevens Pai e Filho. Ouço desde que foi lançada. E o Chico começou a tocar e disse: “Pai, vamos fazer a versão?” É legal porque é um filho se despedindo do pai para ir tocar a vida. É aí que está o combustível da sedução: conseguir tocar as pessoas. Um filho indo embora de casa toca as pessoas.
Chico – Tem dia que a gente fica preocupado. “Olha o tanto de gente chorando!” Impressiona.
Renato – E na música tem uma coisa em que acredito: a única moeda forte no planeta hoje, o único dinheiro que vai sobrar chama-se emoção. Se você consegue emocionar uma pessoa, não tem preço.

E dá para fazer isso até com jingle…
Renato – Principalmente. Se você fizer um jinglezinho meia-boca, passa batido. Agora, se pegar o cara pelo coração, vai vender. Emoção serve pra tudo.
Chico – Para cada jingle, ele fazia cinco músicas, tá? (risos)

Na gravação de Ouça Menino, a participação do seu filho foi natural ou ensaiada?
Chico – Foi natural. Eu o levei pro estúdio porque não tinha com quem deixá-lo. Fiz essa música pra ele. Mas não foi só. Ele gravou mais coisa porque o deixei brincar. Ele fez uns improvisos bem legais. Imagine, pra uma criança, entrar num estúdio, botar o fone, o microfone, aquele som lindo, ficar falando e a música tocando… Eu não fico cutucando muito porque acho que a coisa tem de ser natural, como foi pra mim. Tanto é que está cheio de violão aqui e de vez em quando ele vai e dá uma arranhadinha. Ele tem o maior respeito por violão, nunca deixou cair nem nada. Eu confio. Meu pai, graças a Deus, sempre presenteou a gente com instrumentos top, e eu confio.
Renato – Cada vez que vinham pedir instrumento, nunca dei um meia-boca, para irem se acostumando com os bons. Essa geração nova tem muito mais recursos para trabalhar com música. Tanto que nós estamos fazendo aqui em casa um estúdio. Em geral, o artista, quando começa a investir, compra fazenda. Aqui, a gente só compra coisas que tenham a ver com música. O estúdio é caro, mas vamos gravar nossos discos aí. E os netos vão gravar os deles também.

Como vocês veem o compartilhamento de músicas? A pirataria faz com que vocês deixem de ganhar?
Renato – Por enquanto, até sair um jeito de ganharmos. Para o Chico, é uma dádiva dos céus. Pra mim, é uma vingança contra as gravadoras (risos). A gente não precisa mais delas, e isso é muito bom.

Qual é o próximo projeto?
Renato – Estou com um projeto tão lindo neste ano! Não ficou pronto ainda, mas vou fazer um disco com a minha neta de 10 anos, vou compor junto com ela. Enquanto eu estiver por aqui, com cada neto que estiver na fase dos 10 anos quero fazer um disco junto. São seis netos.
Chico – Antes ele fazia música para nós. Cada filho dele tem uma música.

Renato, você se vê mais novo no Chico?
Renato – É igualzinho. E com eles atuando, eu me modernizo. Estou vinculado a eles agora. Eu me desprendi daquelas minhas influências de Noel Rosa, de Ary Barroso, e acabei me prendendo a eles.
Obs.: entrevista publicada originalmente na Revista do Brasil na edição de setembro de 2011. Veja link.

Pena Branca: o encantador de cuitelinhos

Ao lado do irmão Xavantinho, Pena Branca é dono de um invejável cancioneiro sobre o homem do campo. Leia a seguir um perfil recheado por entrevistas recentes concecidas a mim em que Pena Branca fala da vida e das cantorias. Texto publicado originalmente no jornal Brasil de Fato.


Pena Branca dedilha a viola na varanda esperando o “bichinho sem-vergonha”

A varanda da casa no Jaçanã, no caminho da Serra da Cantareira, em São Paulo, era um pequeno paraíso: “lugar das ‘prantinha’ e dos ‘passarim’”, dizia Pena Branca. “Ali, também toco minha viola”. O instrumento de dez cordas era de estimação, cravado no tampo seu nome, preso ao pescoço com corda fina. O braço da viola ainda era outra farra. O cantor foi fotografado certa vez com o truque matuto de pendurar na viola um bebedouro de beija-flor. Então, só aguardava os “cumpanheiro”. “Mano, cuitelinho é um bichinho sem-vergonha, qualquer água com açúcar ele vem mesmo”, comentava às risadas. Pena Branca nunca ficou rico com sua música, mas vivia exclusivamente dela desde a década de 1980, quando abriu com o irmão Xavantinho uma nova trilha entre os caipiras. Morreu no dia 8, depois de um infarto fulminante, dentro de casa. Aos 70 anos, com alma de criança, Pena Branca partiu e findou a história de uma das principais duplas da música de raiz.

José Ramiro Sobrinho – nome de batismo de Pena Branca – nasceu no dia 4 de setembro de 1939, poucos dias depois da invasão da Alemanha sobre a Polônia, na Segunda Guerra Mundial. Mas a pequena Igarapava, no interior paulista, era bem longe. As notícias só chegavam pelo rádio na colônia de trabalhadores da fazenda Usina Junqueira, onde o pai de Pena Branca morava. Família de negros fortes, frondosos, bonitos. Na mesma cidade, no mesmo ano, havia nascido Jair Rodrigues, outro negro da música. Em entrevistas gravadas com o autor deste artigo nos últimos anos, Pena Branca contou sua história. “Com 10 dias de vida, meu pai se mudou com a gente para Cruzeiro dos Peixotos, uma vilinha perto de Uberlândia”, dizia. Pena Branca se tornou mineiro de criação. “Comecei a falar muito ‘uai, né’”, brincava, “e meu irmão Xavantinho é mineiro de inocente”. Ambos conheceram cedo as festas religiosas enfeitadas de música. Acompanhavam o pai, tocador de cavaquinho, nas folias de reis para adorar o menino Jesus e nas congadas em devoção à Nossa Senhora do Rosário.

Do Cio da Terra – “Naquela época a gente tomava conta de uma fazenda. Quem era arrendatário era arrendatário. Quem era meieiro era meieiro. A gente arrendava, mas era tanto tempo ali que sentíamos como se a terra fosse nossa”, disse. Pena Branca era três anos mais velho que o irmão Xavantinho – na verdade, Ranulfo Ramiro Sobrinho. O mais antigo Pena Branca, encantador de cuitelinhos aprendeu viola, o mais moço, violão. No começo, viver a música era ver o pai. Por pouco tempo, porque ficaram órfãos muito cedo, aos 12 e 9, respectivamente. Ambos foram então para a lavoura, semear o sustento da mãe e cinco irmãos. As toadas e modas de viola agora dividiam o tempo com a enxada e o arado. “O ‘cabôco’ na roça, quando assim passa por uma tormenta, igual nós que ‘perdêmo’ nosso pai, fica de cara achando que ir para a cidade é boa saída. Mas chega aqui e não é assim. Se puder escolher, penso que o ‘cabôco’ passa ‘mió’ na roça, ‘quietim’”. Para ele, o que interessa mesmo é o trabalhador ter “Tonico e Tinoco”. Sabe o que é? “Arroz e feijão, isso não pode faltar na mesa”. Pena Branca lembrava que essa rotina de fazenda levou 30 anos de sua vida. Fez os estudos até o “quarto ano”, nada mais. Só conseguiu se dedicar à cantoria depois de adulto.

No Triângulo Mineiro, a dupla se apresentava nas fazendas e nas pequenas rádios. Começou com um nome pomposo, dado por um coronel: Peroba e Jatobá. Mas não gostaram. Na semana seguinte, já era Barcelo e Barcelinho. Um dia, na escola, a professora falava dos índios. “Ela disse que tinha uns índios ainda muito fortes, os xavantes. Aí, eu olhei ‘pro’ meu irmão e disse: ‘tá aí’! O que acha de Xavante? Ele gostou. E o Xavante não tem fi lho? Xavantinho, uai”, recordava. Esse foi o nome da dupla até a partida de Xavantinho para a capital São Paulo em 1968. Ele estava empregado na transportadora Caçula como motorista de caminhão. No ano seguinte, arrumou um emprego da mesma companhia para trazer o irmão mais velho e reunir a dupla de outrora. Na chegada da capital, buscaram rádios sertanejas e festivais de viola. “A gente ‘ralemo’ demais”, contava. De cara, um revés. Já existia em São Paulo uma dupla com o nome de Xavante. Pena Branca falava: “Eles vieram para nós e falaram que podíamos comprar o nome deles. Aí pensamos: o que é isso? Nós, que viemos pobres de Minas e temos que comprar nome agora. Isso é esquisito demais. Aí virou Pena Branca e Xavantinho de 1970 para cá”.

Estrelas com raízes – A dupla dos irmãos Pena Branca e Xavantinho era como se fosse um só. Formaram desde pequenos uma relação perfeita de vozes, como tinham os ídolos Tonico e Tinoco. Ao estilo caipira, divididas em terças, as vozes eram coringas. Uma olhada de lado ou uma batida de viola os fazia trocar quem soltava primeira e segunda vozes. Os tons agudos dos dois faziam a diferença. Chegavam às finais dos festivais de música, mas ainda não levantavam o voo do sucesso. Em 1980, numa apresentação da orquestra de viola de Guarulhos com a cantora Inezita Barroso, foram notados como as vozes mágicas do grupo. “Eu cantava e não acreditava no que ouvia atrás de mim. Quando terminamos, virei e disse que precisavam sair da orquestra para lançar a dupla em disco. Eles eram muito bons. Pena me chamava de madrinha até hoje”, conta Inezita Barroso, na época estreante no comando do programa Viola, minha viola. “Assim, eles se apresentaram pela primeira vez no programa cantando ‘Velha morada’ e ‘Cio da terra’. Foi lindo”. Começava a carreira com 10 discos gravados – após a morte de Xavantinho, em 1999, Pena Branca seguiu carreira solo e gravou mais três discos, sendo que um ganhou o Grammy Latino de melhor disco sertanejo.

Colecionaram amigos na música caipira. Eram adorados. “E dobra esse carinho aí para a MPB”, dizia Pena Branca. Isso porque misturaram os gêneros dentro do sotaque caipira. “Não existia isso antes. Era cada um no seu canto. Aí gravamos ‘Cio da Terra’. A gente levava na rádio sertaneja e eles falavam que aquilo era MPB. Na rádio de MPB, eles diziam que era coisa de caipira. Era de lá para cá”, divertia-se Pena Branca. O cantor lembrava que um crítico musical paulistano dizia que Milton Nascimento tinha assinado o próprio atestado de óbito ao gravar com a dupla, “uns desconhecidos”. “Mas prefiro não falar o nome dele não. Deixa ele no anonimato agora que é mais gostoso”, dizia. No rol de compositores da MPB que gravaram, estão: Milton Nascimento, Chico Buarque, Renato Teixeira, Guilherme Arantes, Théo de Barros, Djavan, Tom Jobim, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Dominguinhos, Ivan Lins, Paulo César Pinheiro, João Pernambuco, Hermínio Bello de Carvalho e vários outros. “Era queijo com marmelada para fazer Romeu e Julieta… quer dizer, é goiabada, né? (risos)”, resumia Pena.

“Os óio se enche d’água” – “O disco que fiz com eles, em 1992, ao vivo em Tatuí é um marco na minha carreira e na deles”, conta o amigo Renato Teixeira. Pena Branca adorava a música “Cuitelinho”, folclore recolhido e adaptado por Paulo Vanzolini. A música era figurinha carimbada em seus shows. Depois de 1999, contudo, se sentia sozinho. A morte precoce do irmão Xavantinho, de uma doença degenerativa na medula, o levou a seguir carreira solo. Precisava continuar a cantar. Era o que sabia fazer e ainda precisava se sustentar. Mantinha um grupo de amigos músicos para se apresentar em Uberlândia e outro em São Paulo. Emocionava-se sempre com a lembrança do irmão, segundo ele, “o cabeça da dupla, o estudado, o letrista, é uma parte de mim que foi embora”. Várias pessoas lhe diziam que viam ou sentiam a presença do irmão em seus shows. Pena acreditava. “Eu sinto o mano ‘véio’ mesmo. Ele me ajuda demais. E rezo muito para ele”, falava. “Ele divide espaço com meu anjo da guarda”.

Caipira de nascença e criação, Pena Branca vivia na zona norte paulistana há mais de 40 anos. Montava ali o seu reduto roceiro. Gostava de comer em casa, cozinhava muito bem, não abria mão de um queijo fresco. Sua última apresentação na TV foi justamente no Viola, minha viola onde cantou “Vaca Estrela e Boi Fubá”, “Peixinhos do mar” e “Cio da terra”. No dia de sua morte, dizem os amigos, teve um dia normal, até tocou viola. Passou mal no começo da noite, depois de um dia de forte calor na capital. Socorrido após o infarto, não resistiu. Foi enterrado no túmulo onde está o seu irmão, Xavantinho. Novamente juntos. A dupla de pretos com nome de índios, bem brasileiros.

Haiti.Org: jornalismo solidário e colaborativo

Lançamos uma rede de comunicadores, intelectuais, artistas e ativistas para discutir o futuro do Haiti nesse momento em que a tragédia do terremoto assombra o país. O projeto Haiti.Org começa como um site jornalístico sobre o Haiti, que reúne, em primeira mão, notícias, produções multimídia, análises críticas, artigos e entrevistas, documentos e traduções, por meio do trabalho de jornalistas independentes e usuários colaboradores. Será espaço de jornalismo independente, solidário e colaborativo. É resultado do trabalho desenvolvido e coordenado pelo mim, Aloisio Milani, em parceria com os jornalistas Rodrigo Savazoni e André Deak. E aberto a todos que queriam se solidarizar com o Haiti e colaborar com alternativas concretas para sua reconstrução. Para saber mais, vá para a página do projeto. Nos próximos dias estarei por lá a escrever e articular ações relacionadas ao tema.

Haiti e o “estado de sítio” permanente


Artigo meu publicado para o site OperaMundi, disponível neste link
aqui.

Não foi só ontem, não é só hoje. O Haiti vive um “estado de sítio” constante. Quando não “treme” pela pobreza extrema – aqui entendida como desemprego epidêmico, fome crônica e a ausência de saúde e educação públicas -, é a vez das crises políticas e das tragédias naturais: tempestades tropicais, enchentes e furacões. Para dar um exemplo, quatro furacões deixaram cerca de mil mortos e 18 mil desabrigados em 2008. Corpos apodreciam na água das enchentes, não havia estrutura de socorro, o dinheiro e a ajuda humanitária chegavam lentamente. Há pouco, semanas atrás, acabou a temporada de furacões na América Central e, agora, o país se debate com um surpreendente terremoto de magnitude inédita nos últimos 200 anos.

Aliás, dois séculos atrás é aproximadamente o tempo histórico da vitória da única rebelião de escravos que levou à independência de uma nação desde a Antiguidade clássica. Um passado glorioso que vem sendo ofuscado por um presente de pobreza e crises. Desde a deposição do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, em 2004, a situação política oscilava entre momentos de paz, violência e fragilidade política. Mas a pobreza resistia. E a cada fenômeno natural, o espectro da destruição pairava sobre eles. A diferença é que desta vez, a tragédia une brasileiros e haitianos. Haverá mais confirmações de mortes entre os brasileiros capacetes azuis e diplomatas da ONU. A médica Zilda Arns teve ironicamente sua vida ligada ao país do continente americano com um dos piores índices de desnutrição e mortalidade infantil, onde queria implantar as bases da Pastoral da Criança.

O impacto do terremoto sobre o Haiti é brutal porque seu epicentro foi muito próximo de uma das regiões mais populosas, a capital Porto Príncipe. O país tem um território comparável ao de Alagoas, com cerca de 8 milhões de pessoas. Mais ou menos 3 ou 4 milhões vivem só na capital, em favelas de tijolos frágeis, de estruturas baratas, improvisadas. Na cidade, onde os ricos moram nos morros e os pobres na parte plana próxima ao mar, o impacto foi maior em bairros com construções de mais de um piso. A região do Palácio do Governo, vizinha da favela de Bel Air, foi destruída. A situação se repete em bairros mais horizontais, como Carrefour, Delmas e Cité Militaire. Na região de Cité Soleil, de barracos de zinco e tijolos finos, os danos não foram menores.

O distrito de Petion-Ville, no alto da cidade, onde ficam as sedes das embaixadas e organizações internacionais, sofreu grande impacto. Até o Hotel Montana foi atingido, um quatro estrelas versão haitiana, onde morreu o general brasileiro Urano Bacellar em 2006. Passarão semanas para as contagens dos mortos e desaparecidos. O Palácio do Governo, que desmoronou quase completamente, era um centro político e uma espécie de residência do presidente. No hall revestido de mármore sob a cúpula central do palácio, ficavam as estátuas de Simon Bolívar e Alexandre Petion. Frente a frente. A poucos metros da vista ampla da planície da praça. Esses símbolos foram completamente soterrados no terremoto.

Um país imóvel

Vale lembrar que, em novembro de 2008, uma pequena tragédia se abateu sobre o distrito de Petion Ville. Ali, sem temporal, sem vento, sem terremoto, a escola primária La Promésse desabou. Simplesmente veio abaixo pela precariedade de sua construção. Matou cerca de 100 crianças e feriu outras 150. O presidente haitiano, René Préval, disse na época que a fragilidade e a debilidade do Estado permitia a existência de construções precárias e ocupações ilegais, o que aumenta a possibilidade de vítimas. O Haiti tentava reestruturar seu Estado com a ajuda da quinta missão de paz da ONU nas últimas décadas. Mas ainda não havia um sistema de defesa civil estruturado, o que vai piorar a situação agora no socorro e atendimento a feridos. Quem não morreu diretamente pelo terremoto corre o risco de morrer por falta de estrutura de bombeiros ou atendimento médico.

Porto Príncipe já possuía uma infra-estrutura precária. Energia elétrica era luxo. Quem tinha convivia com apagões diários. A distribuição de água era feita, muitas vezes, por caminhões-pipa e fontes de água. Em bairros inteiros, a população se abastecia com baldes. Cité Soleil, a maior favela da cidade, era um exemplo. Agora, com o terremoto, a estrutura de abastecimento de água também sofreu. Num país que importava mais da metade da comida para manter as necessidades básicas da alimentação de seu povo, a água voltou a ser escassa. Todo o combustível do país também é importado. Dificilmente um plano de emergência, com o envio de maquinário pesado, conseguirá colocar em prática um mutirão de salvamento em grande escala para evitar mais mortes. O país está quase imóvel dois dias após o abalo principal.

A ajuda da ONU e a dívida externa

O número de mortos – ouve-se agora uma estimativa do governo haitiano de cerca de 50 mil – seria pelo menos cinco vezes maior do que o total de brasileiros enviados à missão de paz das Nações Unidas nos últimos seis anos. O terremoto deve aproximar mais Haiti e Brasil. Nos últimos tempos, nossos enlaces com o país caribenho aumentaram. Além dos capacetes azuis, ativistas, acadêmicos e religiosos procuravam estreitar relações com o povo. A estrutura da ONU no país sempre esteve longe de mudar o perfil da pobreza e das necessidades básicas para o país se reerguer: trabalho, saúde, educação. Iniciativas como a da médica Zilda Arns eram um pedido de entidades haitianas desde a chegada da ONU por lá, há seis anos. Envio de médicos, engenheiros agrônomos, professores, gestores públicos, entre outros. Tudo que vai faltar em dobro agora.

Do fim da vida de Zilda Arns no Haiti, cabe ainda um recado, acredito. A mudança no perfil da missão da ONU no Haiti é urgente mais uma vez. O estágio relacionado à segurança pública pode ter sido questionável, mas há tempos foi superado. Temos a oportunidade agora de ajudar com menos tropas militares e mais parcerias para a reconstrução e desenvolvimento do Haiti. A começar pelo perdão da dívida externa de cerca de 2 bilhões de dólares, uma porcentagem ínfima na comparação com os rios de dinheiro que os países ricos gastaram para socorrer o sistema financeiro internacional da gana de seus próprios especuladores.

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Terremoto no Haiti em 2010 – update de fotos

Mesmo com poucos pontos de acesso a internet, fotos do impacto do terremoto no Haiti podem ser encontradas no Flickr e algumas agências de notícias. Fiz aqui abaixo uma seleção de usuários que estão atualizando desde antes de ontem. Estimativas do governo balançam entre 50 e 100 mil mortos. Ou seja, não existe ideia exata sobre quão grande é a tragédia. Sabe-se apenas que é gigante, a maior da história do Haiti.

Miami Herald, Washington Post, The Salvation Army, Jurnal.md, Moskom, Catholic San Francisco, Agência Brasil, Cáritas Internacional, IRFCDisasters Emergency Committee (…) [em atualização...]

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Terremoto no Haiti deixa “estado de sítio”

Estou tentando contactar amigos e conhecidos no Haiti. Pelas informações que obtive, a situação é uma calamidade imensa. Os bairros pobres também foram ao chão, o trânsito é quase impossível, falta ajuda para quase todos, a torre de controle do aeroporto ruiu, pessoas estão nas ruas atônitas, esperando socorro médico que não vem de lugar algum. Os hospitais que ficaram de pé não conseguem mais atender tanta gente. Poucos telefones funcionam, o contato com a capital, que já era dificílimo, ficou quase impossível. Conversei com uma pessoa no porto da cidade e ela comentou que as entradas das favelas de Cité Soleil e da zona portuária estão um caos.

Se o mais forte dos últimos furacões no Haiti matou algo em torno de 1 mil pessoas, o número agora pode ser bem maior, porque há muitos estragos na capital do país, Porto Príncipe, a região mais densamente povoada. Há mais brasileiros entre os mortos do que apenas os primeiros confirmados e de Zilda Arns. Essa é só a tragédia que nos une. Para o povo haitiano, também será hora de contar intelectuais, militantes e um sem-número de pessoas que podiam ajudar a impulsionar um novo Haiti – da política, da justiça social e dos direitos humanos. Pense em “Zildas Arns” haitianas que podem ter morrido. Esperar para ver. Reze pelo Haiti.

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Renovação da missão da ONU no Haiti

Aqui, abaixo, texto do site Opera Mundi sobre a renovação da missão das Nações Unidas no Haiti. A autora é a Kivia Costa, que conversou comigo por telefone.haiti cerimônia

A Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), renovada no mês passado até o final de 2010, deve permanecer no país caribenho por mais um ano depois disso, segundo o oficial de comunicação social do exército brasileiro, coronel Gerson Pinheiro Gomes.

Para o porta-voz, a missão de controlar militarmente o Haiti vem sendo passada para a polícia local, mas a segurança dificilmente será mantida a curto prazo sem a ajuda da Minustah. “No interior até conseguiríamos [fazer a transição], mas na capital a situação é mais complicada”, explicou em recente entrevista coletiva em São Paulo.

Na avaliação do jornalista Aloísio Milani, que escreve um livro-reportagem sobre a presença de tropas estrangeiras no Haiti, a permanência da missão brasileira já era esperada. “Quando o Brasil entrou na missão, em julho em 2004, ele já tinha uma perspectiva de longo prazo”.

Para ele, a renovação feita pelas Nações Unidas foi uma mera formalidade, pois não a condicionou a um plano de saída do país. Conforme explica Milani, “a ONU tem grande medo de fracassar no Haiti, como aconteceu nas últimas quatro vezes, mas, ao mesmo tempo, não dá as condições para o país se desenvolver sozinho”.

No entender do jornalista, grandes alterações só devem acontecer a partir de 2011, quando haverá eleição presidencial no Haiti, a segunda desde a criação da Minustah. “Vários membros do governo brasileiro e de outros países já deram declarações dizendo que o formato da Minustah deve continuar até 2011.”

O coronel Pinheiro confirma que a configuração das tropas brasileiras deve ser mantida até aquele ano. Segundo ele, a infantaria deve encolher e o contingente de engenheiros militares e pessoal de apoio deve aumentar, mas o novo presidente dirá se quer ou não manter as tropas estrangeiras.

Segundo Pinheiro, hoje, só a polícia haitiana pode fazer prisões. Ela também seria responsável por controlar as manifestações populares. “A TV haitiana não coloca no ar nada com tropas estrangeiras. Hoje, o importante é mostrar que a policia local paulatinamente dá conta da situação.”

Jogo político

O coronel não esconde que o Brasil tem interesses diplomáticos com a ação no Haiti, como conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança na ONU. Segundo ele, o Brasil “não está no Haiti por uma estratégia militar, mas por uma estratégia de governo. Essa é uma decisão política”.

De acordo com o coronel, haveria um entendimento por parte da ONU de que a presença brasileira no Haiti atrapalharia a participação de outros países da América do Sul. “É a primeira vez que tem uma missão com forte presença de países do sul e poucos países desenvolvidos”, ele destacou.

Os maiores contingentes militares no Haiti vêm de países em desenvolvimento. O Brasil é a nação que mais soldados enviou (1.282), seguido pelo Uruguai (1.135) e pelo Nepal (1.075). Países europeus e norte-americanos têm um contingente ínfimo na Minustah. “A prioridade dos Estados Unidos e do Canadá é hoje o Afeganistão”, comentou o coronel Pinheiro.

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Revolução da viola: do culto à vanguarda

Pesquisadores e músicos indicam que a viola vive seu período mais fértil na música. Ligada às tradições populares – e, por muito tempo, rejeitada no cenário nacional –, a viola agora tem seu auge com um sem-número de instrumentistas, compositores e mestres. Deixou de ser som de acompanhamento de cantores para abrir, entre roças e cidades, uma nova fronteira melódica e harmônica. Por Aloisio Milani

(Texto publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, edição outubro 2009)violeiros

Os dedos de Almir Sater ponteiam um blues. O ganso é o nome da música. Composição própria, tocada no palco do programa Viola, minha viola, da TV Cultura, sob o olhar atento da cantora e folclorista Inezita Barroso. O templo da música caipira muda naquele momento. Pelas suas mãos, o Pantanal se aproxima do Mississipi. Almir toca de óculos. Repousa o pé direito sobre o esquerdo, um tipo de suporte próprio para a viola se moldar ao corpo. O blues segue acompanhado pelo violão do irmão mais novo, Rodrigo Sater, que pouco tempo depois repetirá a saga de peão-violeiro em novela – dessa vez, a escolhida é a trama Paraíso, da TV Globo. Mas ali, atrás do palco do blues caipira, na coxia, há algo mais importante. Os violeiros Roberto Corrêa, Paulo Freire e Adelmo Arcoverde observam atentos a apresentação – todos são virtuoses das dez cordas. Mais que regionalistas, eles integram uma geração de instrumentistas brasileiros que conseguiu deslocar a viola para um novo patamar: o de instrumento complexo, de sonoridades amplas, que bebe na inspiração das tradições e voa alto, incorporando novas referências e elementos eruditos e populares.

Ao lado de Almir, o grupo se apresenta como parte do projeto “Violeiros do Brasil”, idealizado e dirigido pela produtora Myriam Taubkin. É um registro de 13 violeiros selecionados em dois momentos: 1997 e 2008. Na década passada, o encontro resultou em um disco ao vivo e ajudou a dar visibilidade para um movimento de contemporanização da viola, com novos instrumentistas e influências. “A viola já tinha mudado. E ali começou a mostrar sua força”, lembra Paulo Freire. Mas voltemos à apresentação televisiva do grupo. A música após o blues de Almir Sater encerrará o programa. Todos juntos farão um arranjo clássico para a voz de Inezita Barroso. Ansioso, o pernambucano Adelmo Arcoverde pergunta: “Que tom ela canta?”. Roberto responde sério: “Si”. A pegadinha faz tremer o rosto do experiente professor e improvisador Adelmo. “Si” é um tom complicado, que exige acordes com pestanas. Com cinco sustenidos, é quase impossível fazer rápidas e precisas progressões na escala. Silêncio estratégico. Depois, risos. A piada se desfaz. Paulo e Roberto se desmancham. E entram no palco. Tocam Boiadeiro errante em “Sol”.

“A viola é passado, presente e futuro”, sentencia Roberto Corrêa, físico graduado e um dos principais violeiros dessa geração, com um intenso trabalho como pesquisador da área. “O que se vê de mais interessante no atual cenário musical brasileiro é o que se tem feito com a viola”. De instrumento incrustado nos rincões do Brasil, servindo de base para cateretês, cânticos religiosos e brincadeiras pagãs, ela rompe o preconceito de ser caipira e se torna contemporânea. É capaz de se misturar a instrumentos de música clássica e aos populares – clarinete, flauta, cello, fagote, piano. “Ela vai no caminho inverso de outros instrumentos, porque há pouca coisa escrita. Não veio do erudito, como o piano, por exemplo, e se popularizou depois do violão”, explica Myriam Taubkin. Para entender essa evolução, é preciso voltar um pouco na história e localizar a origem deste instrumento idiomático. A âncora da tradição nasceu portuguesa e abrasileirou-se.

A evolução

Caipira, nordestina, de arame, cinturada, cantadeira, do capeta ou devota. A viola brasileira pode ter muito nomes e apelidos – aliás, tantos quantos se possa imaginar –, mas sua estrutura é semelhante ao instrumento que desembarcou no Brasil com os colonizadores portugueses. Dez cordas presas nas extremidades e com uma caixa de ressonância de madeira em forma de oito. “A viola veio com os jesuítas para a catequese. Os índios adoravam as escalas musicais. Os cantos eram de devoção. Nossa música paulista começou santa”, relata Inezita Barroso. Em seu apartamento, em São Paulo, Inezita guarda a relíquia de uma imagem de São Gonçalo, o santo violeiro que encantava as mulheres de “vida fácil” com danças, para que elas não caíssem nos pecados da carne. Assim, ganhava força a mística do tocador de viola. Ele era visto como alguém que enfeitiçava as mulheres, ainda que exista quem encontre outras fontes de inspiração para os solos e melodias.

A capacidade de tocar viola sempre esteve ligada a uma espécie de pacto com o lado espiritual. Geralmente com um ente avesso a santos, anjos e querubins. Segundo as tradições populares, era mesmo o diabo que fazia um bom violeiro. Tal como acontece com os tocadores de blues norte-americanos. Robert Johnson, dizem, teria feito um. Receitas não faltam para encontrar o diabo. Paulo Freire, jornalista por formação e violeiro por adoção, conta que o bom mesmo é meter a mão em buraco de igreja do interior. Depois de sentir os dedos quebrados pelo tinhoso, os ponteados estarão todos morando na sua mão. “Funciona”, brinca. O anedotário rural ainda recomenda botar um guizo de cascavel dentro da viola. Uma pesquisa de Mário de Andrade sobre a cultura popular, na década de 1920, registrava que o guizo da cobra dá bom som para o instrumento. Mas na pequena Pindamonhangaba, interior de São Paulo, havia violeiro que tinha um pé atrás com o conselho. “O guizo melhora o som, mas não presta, porque seis meses depois vira a própria cascavel”, registrou o inquérito do escritor modernista.

A viola e seus trejeitos foram passados no boca a boca por muito tempo. Durante a colonização, os bandeirantes a levaram sobre as mulas e cavalos para o interior do Brasil. O isolamento geográfico a aproximou cada vez mais dos temas rurais, tornando-a um instrumento do campo. Só veio a ter algum registro musical bem mais tarde, com pesquisadores. Entrou para a indústria fonográfica por iniciativa pessoal de um folclorista da cidade paulista de Tietê: Cornélio Pires, que pagou do próprio bolso a gravação que a dupla Mariano e Caçula fez da música Jorginho do sertão. O sucesso de Cornélio foi estrondoso. Cinco mil cópias vendidas em 20 dias na carroceria de um caminhão pelo interior. Lançou-se para a história como um dos primeiros “produtores independentes” do país. Um mercado que a elite desconhecia. E detestava.

A música caipira, com a viola no prumo, seguiria como um gênero do interior por décadas a fio. Os principais nomes? Raul Torres e Florêncio, Capitão Furtado, João Pacífico, Tonico e Tinoco, Luizinho, Limeira e Zezinha, Vieira e Vieirinha, Carreirinho, Nenete e Dorinho, Jacó e Jacozinho, José Fortuna e Pitangueira, Tião Carreiro e Pardinho, Pena Branca e Xavantinho, Zé Mulato e Cassiano, e tantos outros que não cabem nestas linhas. Dessa lista sem-fim, um músico foi especial: Renato Andrade, cujo trabalho abriu nova trilha para a viola caipira. Mineiro de Abaeté, ele teve formação clássica para o violino, mas trocou de instrumento. Amadureceu uma técnica espetacular para tocar viola. Suas músicas eram verdadeiras novidades melódicas. Autossuficientes. Renato as nomeava como causos rurais: O jeca na estrada, Prelúdio da inhuma e Sinhá e o diabo. Entre suas qualidades também se destacava a de contador de histórias. A receita do pacto do diabo para os violeiros se popularizou em suas apresentações. “Tinha hora que dava para acreditar que ele tinha pacto com o demo mesmo. Era muito som para pouco dedo. Parecia que ele tinha mais de duas mãos”, fala Paulo Freire.

Viola na vanguarda

O primeiro registro do projeto “Violeiros do Brasil”, da produtora Myriam Taubkin, contou com a presença de Renato Andrade e de Zé Coco do Riachão, dois mestres do gênero. Na segunda edição, ambos já tinham morrido, mas os 11 demais são unânimes em avaliar a genialidade musical dos companheiros. “Renato Andrade fez história. Tenho como certo que podemos avaliar o movimento da música de viola antes e depois dele. É um divisor d’água da viola no Brasil”, diz Pereira da Viola, mineiro do Vale do Mucuri. O legado artístico de Renato tem pelo menos quatro discos fantásticos. E uma rapidez inacreditável nos dedilhados. Uma vez, o jornalista José Hamilton Ribeiro, veterano amante dos caipiras, calculou, em uma reportagem do Globo Rural, que Renato Andrade era um dos músicos mais rápidos do mundo. “Era mais rápido que os mais rápidos instrumentistas eruditos”, diz.

Renato trouxe para muitos instrumentistas o caminho das experimentações. Ivan Vilela, mineiro de Itajubá, foi um deles. Apaixonado pelo Clube da Esquina, soube como poucos adentrar no mundo da viola. Em dois discos instrumentais, “Paisagens” (1998) e “Dez cordas” (2007), transita entre o tradicional e o moderno. Toca cururus, flerta com o movimento armorial e rompe preconceitos ao (re)construir Eleanor Rigby, de Lennon e McCartney. Ainda compôs uma ópera caipira, prova de que é teórico e prático do instrumento. Na Universidade de São Paulo (USP), foi o criador do primeiro curso de graduação de viola caipira, lugar em que também levantou um séquito de alunos admiradores. “O aluno de viola precisa ser, além de um bom músico, um pesquisador com pés fincados na antropologia, na sociologia rural e na história. Precisa ser um intelectual capaz de identificar os traços idiomáticos da viola e da música produzida pelos caipiras”, explica.

E assim, cada violeiro vai buscando suas referências. Paulo Freire, por exemplo, já botou distorção de guitarra na sua viola de cocho – aquela viola do Centro-Oeste construída a partir de uma peça única de madeira. Escavada e sem abertura para caixa de ressonância, ela traz um som metalizado. A distorção de guitarra, diz Paulo, está em seu subconsciente musical desde quando ficou marcado pelo solo de Jimi Hendrix, no hino norte-americano contra o fim da Guerra do Vietnã. Paulo, que é filho do anarquista, psiquiatra e escritor Roberto Freire, juntou a distorção de guitarra aos efeitos da música Antônio Conselheiro para simular o bombardeio de Canudos – nossa chaga aberta do sertão nordestino.

Quem também busca sonoridades diferentes é Braz da Viola. Luthier conhecido e autor de um dos mais famosos métodos de aprendizagem de viola, Braz agora mistura timbres da guitarra elétrica e contrabaixo com a viola caipira e a de cocho. Traz as melodias das toadas caipiras e deságua no blues e no jazz.      “A viola tem um imenso caminho pelo século XXI, porque tudo está por ser explorado”, diz Myriam. A trilha mostrada por Braz da Viola e seus companheiros no projeto “Violeiros do Brasil” é uma espécie de ciclo de uma segunda geração de músicos. Isso se pensarmos que a primeira foi a de Renato Andrade, e a segunda, a dos demais aqui citados. Vale ainda lembrar de alguns não contemplados no projeto, e que são igualmente magistrais: Chico Lobo, Zeca Collares e Fernando Deghi.

Uma terceira geração, contudo, já surge no cenário independente, formada sob a influência de caminhos abertos por todos que a antecederam. Uma geração que já reflete uma pluralidade de sons. Em uma década ou menos, a maioria provavelmente será de novos mestres. Está aí a magia de um instrumento que se renova na bagagem das ascendências mestiças do brasileiro. E tudo se mistura no saco da viola. Com o diabo e seus santos. 

“Ipod caipira”

Para os leigos e curiosos no assunto, a modernidade ajuda (e muito): é possível assistir a algumas preciosidades violeiras na teia gigante de pocket-vídeos do YouTube. Em um “Ipod caipira” não podem faltar músicas como:

- A famosa parceria de improviso entre Tião Carreiro e Almir Sater, no pagode;

- O encontro da viola de Roberto Corrêa e da rabeca pernambucana de Siba, no projeto “Rumos” do Itaú Cultural;

- A história ancestral de Vai ouvindo, de Paulo Freire, que diz que a viola ali foi feita de um antigo banquinho, “onde a gente passava as horas juntinho”;

- O arranjo genial dos improvisadores Adelmo Arcoverde e Ivan Vilela, na tradicional Asa Branca, de Luiz Gonzaga, em que as violas parecem adentrar os próprios tocadores.

No caso do projeto “Violeiros do Brasil”, um show recente em Belo Horizonte está editado e dividido em músicas para os internautas. Basta procurar os vídeos adicionados pelo perfil “taubkinmy”.

Update 21 de outubro:

- O programa Mosaicos, da TV Cultura, sobre Tonico e Tinoco;

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Anos 50 no Haiti, por Kesler Pierre

haiti Kesler Pierre

Esse fotógrafo digitalizou fotos suas na década de 1950 no Haiti. São apenas algumas, mas vale para ver um país meio século atrás. Vá lá no site dele para ver mais. Kesler Pierre

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O que disse Kai Michael Kenkel

Na retomada que faço de publicação de posts, escrevo aqui algumas considerações do professor assistente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Kai Michael Kenkel, que tem refletido sobre a presença do Brasil na missão das Nações Unidas no Haiti. Pelo currículo lates dele, dá para perceber que ele já escreveu artigos sobre o assunto, orientou teses de graduação e orienta teses de pós-graduação. Deixo aqui algumas coisas que li dele:

Em contraste com o Canadá, o envolvimento do Brasil na manutenção da paz está em consonância com seus objetivos geopolíticos ao invés de um sentimento de obrigação moral. As tropas brasileiras têm realizado a sua missão com profissionalismo e sucesso, uma integração sem precedentes nas metas da política externa com aplicação militar. (…) Embora não totalmente desprovido de um componente moral, as motivações do Brasil não se enquadram na mesma categoria de altruísmo explícito que, tradicionalmente, constitui a singularidade da política externa canadense.

Como sou estrangeiro, acho que não me cabe fazer certas avaliações dos fatores que motivam a política externa brasileira. Fala-se muito que um dos objetivos era ganhar pontos para a campanha por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Outro seria o Brasil ganhar um perfil de líder na América Latina. Acho que esse esforço de começar a aprender a trabalhar bem com os outros está indo bem. Mas, para o objetivo do Conselho de Segurança, a participação em missões de paz não é a melhor maneira de ganhar espaço. Quem contribui com tropas senta à mesa de negociações com mais seriedade quando se discute a missão em questão. Mas só isso. Não é um modo particularmente eficiente de ganhar um perfil para integrar o Conselho de Segurança. Por exemplo, 45% das tropas em missões da ONU hoje são do subcontinente indiano: Bangladesh, Paquistão, Índia e Nepal. Exceto a Índia, esses países não têm perfil para integrar o Conselho de Segurança.

Acho que já chegou o momento de pensar em uma estratégia de retirada para os brasileiros. A ideia de toda operação de paz é ser pontual, limitada no tempo, pelo menos uma operação baseada no Capítulo VII. A ONU, em relatório recente, estabeleceu o que chamou de critérios anuais a serem cumpridos em cada setor da missão. E o planejamento deles acaba em 2011. Para o Brasil, chegou o momento de pensar em uma estratégia de saída. Sobretudo porque no Haiti já há uma muito forte presença da ONU fora da Minustah. Além disso, para a missão deixar um marco positivo, a transição para uma equipe de haitianos tem de ser preparada já.

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