Bon Bagay Haiti: making of da reportagem

Esta é a história da produção de um web-documentário sobre o Haiti. Publicado nesta semana pela Agência Brasil, o vídeo foi a concretização de um processo de pouco mais de um mês – entre sua idéia, apuração, roteiro e edição. Ele nasce dentro de nosso conceito de linguagem multimídia trabalhado na Radiobrás, segundo o qual os diversos recursos midiáticos devem responder à necessidade de contar uma história. E não o inverso. Nada melhor para isso do que a internet. Sobretudo com a execução de uma equipe brilhante: André Deak, editor-executivo multimídia; Rodrigo Savazoni, editor-chefe; Marcello Casal Jr., editor de fotografia; Yasodara Córdova, editora de arte; e Mário Marco Machado, nosso homem-programadô.

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Menino olhando para nós lá em Ti Haiti, o miolo de Cité Soleil


A idéia

Nossa idéia surgiu na saleta do Rodrigo Savazoni após chegar a possibilidade de eu ir pela quarta vez ao Haiti, o país onde uma missão da ONU tenta conter uma crise política e social. Rodrigo e André queriam algo de impacto estético para contarmos histórias desse povo, que há quase quatro anos freqüenta as páginas dos jornais brasileiros, mas ainda são desconhecidos. E uma idéia brotou a partir de nossa observação do MediaStorm. Fazer um documentário, entremeando fotos preto-e-branco e vídeos coloridos. Sem off, sem passagem. Somente a edição de depoimentos dos haitianos. “Precisamos de algo novo no Brasil. E só com haitianos falando”, dizia Rodrigo.

O objetivo também era potencializar a ação de especiais da Agência Brasil feitos com audiovisual, uma tendência que tem dominado a nata do conteúdo jornalístico dos grandes sites internacionais, como o do Washington Post. “Trata-se da utilização, na internet, das linguagens consagradas pela fotografia e pela televisão. Como há um texto de abertura, que serve ao mesmo tempo de sinopse e introdução, pode-se dizer que também a liguagem de texto contribui para essa reportagem multimídia, multiplataforma”, explica conceitualmente o Deak. Aliás, sobre o jornalismo multimídia ele escreve muito. É uma referência para o assunto hoje.

O cronograma da viagem era apertado. Seria o acompanhamento de uma comitiva da primeira visita do ministro da Defesa, Nelson Jobim, ao Haiti. Com ele, os comandantes militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Na pauta, uma reunião importante de todos os ministros sul-americanos da Defesa que possuem tropas militares no Haiti. Eu teria que “fugir” em algum momento da cobertura de autoridades para buscar esse material. Iríamos com uma equipe multimídia: um fotógrafo, um cinegrafista e um repórter.

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Mulher carrega sacos de comida, enquanto passa por ponte de fiscalização das tropas brasileiras que integram a missão da ONU

Apuração

Decolamos em um avião da Força Aérea Brasileira de Brasília. Na escala em Boa Vista (RR) não pudemos seguir. O furacão Félix passava. O centro dele era exatamente na nossa rota até o aeroporto Toussaint Loverture, em Porto Príncipe. Tivemos que pernoitar lá. Com isso, o cronograma foi fatiado. Só teríamos um dia e meio de apuração no Haiti, incluindo a cobertura das autoridades. Achava que era o fim do especial. Contatei meu guia no Haiti e avisei dos imprevistos, numa tentativa de adiar nossa apuração em Cité Soleil. O guia é um haitiano de classe média alta lá. Tem casa, trabalho bom, caminhonete tracionada e falava fluentemente inglês, espanhol, francês e creoule.

Mesmo atrasado, combinei com ele que teríamos metade de uma tarde para fazer nossa apuração. Mataria a cobertura do Jobim na sede da Minustah, onde o “prejuízo” de informação seria menor. Assim foi. Saímos do hotel, Marcello Casal Jr., Oswaldo Alves e eu. Seguimos para Cité Soleil. Entramos pela rua principal e paramos em Soleil 6. Lá conversamos com Mário Sejour, um ajudante de obras afixionado pelo Brasil. Seu primeiro filho é uma homenagem ao atacante da Copa de 94: Romário. Foi elogioso à ação das tropas, mas disse que o problema deles não era só segurança. Era “trabalho, saúde, escola”, elencou. Ao seu redor um grupo de 15 pessoas se amontava para ver a “filmagem” dos brasileiros.

Depois, fomos para Ti Haiti, pequeno Haiti em creoule, local bem pobre de lá. Aí conversamos com dona Enel, uma senhora que vendia salgados nas vielas para pagar a escola de um de seus nove filhos. Era uma espécie de fogazza recheada com repolho. Custava 5 gourdes, na moeda local. Ela reclamava da falta de ocupação para os jovens. Só lembrando que no Haiti, mais da metade dos 8,5 milhões de habitantes tem menos de 20 anos de idade. Uma população jovem. Na maioria, também sem escola ou emprego. Na seqüência, só com um gravador de MP3 gravei o líder comunitário Jean, explicando um trabalho de formiga que faz por lá. Também comprei cd’s com músicas haitianas para servir como BGs do especial.

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Mário Sejour, ajudante de obras em uma empresa da zona portuária


Roteiro

Na volta, Marcello Casal Jr. fez uma edição sobre o material fotográfico. Era primoroso. Ganhamos esteticamente o especial ali, com aquelas fotos. Oswaldo Alves separou os 20 minutos de vídeo, gravados em uma câmera PD. Aí entrava o meu trabalho de roteirização. Como a base eram os depoimentos, precisava fazer a transcrição. Foi a luta maior. Eu havia entendido o sentido geral dos depoimentos por intermédio de meu intérprete, e para o inglês. Mas precisava da transcrição ipsis literis. Depois de uma semana procurando alguém para ajudar, inclusive na Embaixada do Haiti no Brasil, conheci duas haitianas que moram em Brasília e falam creoule. Foi a salvação.

Ficamos quatro horas transcrevendo tudo para usar nas legendas do especial. A partir dali, fiz uma sugestão de ordem das fotos com os três depoimentos em seqüência, divididos em duas sonoras cada. Então, o Rodrigo Savazoni pegou o original. E em 30 minutos fez um trabalho primoroso de misturar as “cartas”. Misturou a ordem das sonoras e deu uma seqüência lógica aos depoimentos e às cartelas – os textos que aparecem sobre o fundo preto no vídeo. Como exemplo, coloco aqui um trechinho original do roteiro.

(…)
BG – FADE IN – CD RASIN KREYOL – MÚSICA 12
FOTOS
CARTELA: “250 mil pessoas vivem na maior favela do mais pobre país das Américas”
FOTOS
BG – FADE OUT
SONORA 1 – ARQUIVO MOVIE 004 – 00″19′ a 01″20′ – Duração 00″59′
00″19′ – “Eu sou Mário Sejour, estou vivendo em Cité Soleil, tenho quatro filhos, tenho 27 anos, eu vou ao trabalho, tenho esposa e filhos”
00″35″ – “Aliás, estou muito feliz porque todas vezes que os jornalistas vêm eles não entram dentro de Cité Soleil para fazer o que vocês estão fazendo. Estou muito feliz. Sempre dizem que vão vir e nunca entram em Cité Soleil”
(…)

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Garoto de Ti Haiti. Para nós o símbolo do termo “bon bagay”.
Ele me falava assim: “Ei, you. Give me chocolá”


Edição

Após o roteiro, Deak e Yaso definiram que o especial teria uma moldura máxima de 750 pixels por 500 pixels. Seria uma caixa preta com design minimalista para destacar a estética das fotos preto-e-branco e dos vídeos coloridos. O título do especial seria “Bon bagay Haiti, histórias de Cité Soleil”, uma sugestão do Spensy Pimentel. Escolhemos uma foto dos pés de dona Enel, ao lado das filhas. O chão de terra batida tinha uma área limpa para escrevermos o título em uma fonte leve e alaranjada. Paralelamente, o vídeo começou a ser montado pelo Deak no editor de vídeo Premier. Um trabalho chato em computadores de pouca memória. A programação foi feita pela Yaso e Mário Marco em action script.

Acabamos tudo na terça-feira (16), com a revisão das legendas. Aquela idéia inicial nascia depois de muitos obstáculos, com pequenas chances de ser concluída diante das condições de execução. O final está lá na Agência Brasil. E, posso dizer, este é meu último trabalho de reportagem na agência. Nesses quatro anos, redimensionamos editorialmente e esteticamente esse veículo digital da Radiobrás. Com sentimento de dever cumprido. Não deixa de ser um presente para todos os que acreditaram e fizeram parte desse processo.

Bon bagay!

 

Ah, o André Deak colocou no You Tube também. O embed tá aqui.

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22 comentários sobre “Bon Bagay Haiti: making of da reportagem

  1. Fala Aloísio, beleza? Cara, já comentei lá no blog do Deak, vcs estão de parabéns pelo trabalho, bem na linha do que os bons veículos americanos têm feito. Vou comentar só a “forma”, porque o conteúdo eu ainda estou digerindo, é chocante.
    Abraço,
    Paulo.

  2. Grande Paulo,
    Obrigado pela audiência. Esse especial sobre o Haiti também faz parte de um trabalho meu de contar a situação política e social do país. Meu blog foi uma tentativa disso. Talvez resulte num livro, mas essa é outra história.
    Até,
    Aloisio

  3. FIQUEI MUITO FELIZ DE VER MEU PAIS HAITI OBRIGADA PELA AUDIENCA .MAS QUANDO VOCE FALO DO CITE SOLEIL COLOCAR QUE PARECE MUITO COM A MAOIR FAVELA DE RIO JANEIRO.A POLITICA DELA NÃO E TÃO PIOR QUE O BRASIL.

  4. Sakamoto, descobri seus escritos (blog, pesquisas, seu trabalho para a OIT, enfim…) quando comecei minhas próprias pesquisas para uma mono sobre trabalho escravo contemporâneo (e todos os, infelizmente, nomes assemelhados rsrsr). Queria deixar aqui registrada minha profunda admiração por tudo quanto li de sua “lavra” ;), bem como por sua sensibilidade – pensei cá comigo: um cara tão jovem e articulado se envolvendo na defesa de uma “causa” que poucos se dão conta e que deveria mobilizar toda a sociedade! Admirável. Tudo quanto diz respeito a essa parcela do nosso povo (não só os nacionais mas de qualquer canto do mundo) tão relegada, explorada e sofrida também sempre me mobilizou, por isso escolhi a lamentável realidade da escravidão atual para o trabalho. Eu mesma conheci um homem que foi “escravo” em fazenda aqui do RJ; a família sofreu muito para tê-lo de volta. E agora estamos aqui, estarrecidos e sofrendo com a tragédia (anunciada, diga-se) em Porto Príncipe, angustiados por sabermos que não há uma resposta imediata que efetive uma solução mais digna para esse povo tão “gente boa’. Parabéns! “Ei, you. Give me chocolá” – Abraços fraternos Regina

  5. Desculpe! Parece indelicadeza, mas o comentário era para um post do Sakamoto e entrou aqui. Na verdade descobri seu blog através do blog do Sakamoto e estou profundamente agradecida – é maravilhoso!
    As reportagens e textos sobre o Haiti são explêndidos, não fosse a realidade deles tão massacrante. Obrigada por disponibilizar material tão rico e sensível e desconsidere o comentário abaixo (poderia deletá-lo, por favor? )

    Abraços fraternos

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