Opinião e exclusividade sem jornalismo

O Jornal do SBT forçou a barra com as duas últimas reportagens que fez sobre o Haiti (dia 25 e dia 26). No vídeo de sexta-feira, mesmo com uma boa intenção de falar sobre o Haiti, contrabandeou uma opinião sobre Hugo Chávez que a matéria não sustenta com fatos. “O governo e os comandantes militares não admitem mas também não negam: chefiar a missão da ONU é uma maneira de o país se contrapor à crescente influência do presidente venezuelano, Hugo Chávez, entre os países da nossa vizinhança”, diz. É até uma hipótese a se pensar, mas não passa disso se não houver apuração.

Ao mesmo tempo, “vendeu” no abre uma idéia de que os haitianos estão “descobrindo” a cultura brasileira, mesmo do lado dos Estados Unidos. O nosso futebol é amado lá, sim, mas a cultura norte-americana se impõe para eles de maneira muito mais próxima. Ah… o Carlos Nascimento cita que no Haiti se fala francês. Ela é a língua oficial, mas a esmagadora maioria das pessoas fala creoule, mistura do francês com línguas africanas. A diferença é muita.

A matéria de quinta-feira era uma boa possibilidade de explicar a situação do Haiti. Num espaço curto, elencou elementos importantes sobre a ausência de saneamento básico e a oposição entre a vida da elite e dos pobres. “Os poucos ricos vivem no alto da serra e têm carros blindados comprados nos Estados Unidos. Miami fica pouco mais de uma hora de vôo. Lá embaixo, a imensa maioria da população vive na probreza, anda de tap-tap, o único meio de transporte coletivo. Qualquer veículo é improvisado para transportar passageiros. Pelo equivalente a 5 centavos de real dá para atravessar a cidade”, registra.

No final, uma passagem do repórter mistura um monte de informações sem fonte declarada – um problema quando se fala em conflitos no Haiti, que sempre tem diversos lados. O final deveria, para se fazer minimamente jornalismo, se transformar numa matéria à parte. O repórter ressalta a exclusividade de se entrar em Cité Soleil à noite, elenca dados de presos e mortos sem citar a fonte (esses dados são contraditórios), não entrevista nenhum morador da região para checar sua hipótese e nomeia os quiméres, grupos armados aliados de Aristide, como os únicos existentes.

Há outros grupos armados, como os ex-militares, os narcotraficantes etc. Com interesses e ações diversas. “É a primeira vez que uma equipe de televisão passa por Cité Soleil à noite, desde o início da intervenção da ONU no Haiti. Fuzis com mira a laser ajudam a vasculhar os cantos. Quando o governo caiu, as gangues, aqui chamadas de quiméres, começaram a brigar por espaço – 252 chefes criminosos foram presos e dezenas morreram em confronto com os militares. A TV haitiana comemora. Agora a vida anda mais tranqüila mas em meio a tanta miséria ainda é difícil dizer o que melhorou”, diz o texto.

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