Ecos da Providência e acusações no Haiti

Após um vai-e-volta na Justiça, a Polícia Militar começa gradativamente a ocupar posições que estavam com o Exército no Morro da Providência. A transição acontece depois da pressão por conta da morte de três jovens detidos por militares e entregues no Morro da Mineira, onde uma facção rival os executou com 46 tiros. A substituição se dá com policiais militares que estavam no Complexo do Alemão. As mães dos jovens mortos se encontraram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Guanabara e enfatizaram o pedindo de saída das Forças Armadas da comunidade.

O site Contas Abertas também fez uma reportagem sobre os desencontros administrativos da atuação do Ministério das Cidades e do Ministério da Defesa no Morro da Providência. O acordo de cooperação técnica entre os dois ministérios só teria sido formalizado no final de janeiro, ou seja, depois do início da ocupação na comunidade. Um projeto de lei do senador Marcelo Crivella, que autoriza a presença de militares em projetos de melhoria habitacional em locais de risco, ainda não foi aprovado no Congresso. O site não ouviu o lado do Exército ou do Ministério das Cidades.

O “já” candidato à prefeitura do Rio de Janeiro, o deputado Fernando Gabeira (PV), aproveitou para disparar contra o adversário, o senador Marcelo Crivella (PRB). Segundo ele, a execução dos jovens acabou por se tornar um crime eleitoral. “A campanha [eleitoral no Rio de Janeiro] começa manchada de sangue. Manchada com o sangue dos garotos da Providência, que foram entregues ao tráfico pelo Exército brasileiro. Manchada por culpa do presidente da República, por culpa do vice-presidente da República [José Alencar], por culpa do Marcelo Crivella. Não podemos ser cúmplices desse crime”, acusou Gabeira. “O Exército não pode se envolver num crime desse sem que haja uma lei específica.”

Aproveitando as acusações, a Folha de S.Paulo fez um texto, sem fontes em “on” (não sei o por quê?), para dizer que as Forças Armadas do Brasil também são acusadas de excessos na força de paz das Nações Unidas no Haiti. Mesmo após várias e várias tentativas de entidades haitianas de denunciar possíveis violações pelos militares da ONU, o assunto só ecoou por aqui nos jornais de grande circulação após o “desvio de conduta” do Morro da Providência. O que é investigado lá parece não ter a mesma dimensão daqui, mas muitos assassinatos de civis aconteceram nas favelas sem esclarecimentos formais.

Na última visita de Lula ao Haiti, entidades se mobilizaram para protestar contra a força da ONU e listaram o nome de quatro pessoas que teriam sido vítimas de ações violentas. Nelson Romelus, Stanley Romelus, Sonia Romelus, Lelene Mertina. E, assim como as mães da Providências, algumas entidades de lá pedem a retiradas das tropas da ONU. Estranha maneira de prestarmos atenção no problema dos haitianos.

Anúncios

2 comentários sobre “Ecos da Providência e acusações no Haiti

  1. Sem dúvida, Aloisio. Essa conexão entre Haiti e Providência que você tem feito aqui é muito importante. Distantes no mapa, essas duas “comunidades” negras estão no centro de um debate sobre a atuação das Forças Armadas. Vale lembrar ainda todo o debate que tem sido feito em torno da Raposa Serra do Sol, com os militares freqüentemente acusando as terras indígenas de ameaça a soberania nacional. Afinal, que projeto é esse que as Forças Armadas têm para o país, para o Haiti, para as “minorias” tão maiorias? Edson Cardoso, do Ìrohìn, publicou artigo interessante sobre o Estado versus população negra. Vale conferir: ttp://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=3352.

    abraço,
    Juliana Cézar Nunes

  2. Juliana, interessante mesmo a reflexão do Edson Cardoso. Até que ponto crimes como esses não são mesmo resultados de uma agressão aos negros. A história de exclusão e desigualdades contra os negros é tão grande que até se esquece de levar esse ponto em conta. A questão das comunidades pobres no Brasil é, de fato, uma razão mais levantada do que a racial. Agora, no Haiti, se levarmos essa discussão ao limite histórico e geopolítico, a atual situação do país não deixa de ser um elemento da exclusão racial das elites brancas do mundo. Não acha?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s