“Soja logo ali, ó”, aponta o líder Kaingang

Confinados numa área de cerca de dois hectares, na zona rural do município de Laranjeiras do Sul, interior do Paraná, o povo Kaingang espera a posse definitiva de sua terra, a Boa Vista. São 34 famílias, totalizando 130 índigenas, que estão em barracos de madeira e telha de fibras com cimento, doadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Ou em simples barracos de lona. Há três banheiros construídos pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e a captação da água acontece fora da área da aldeia, em um local facilmente atingido por pulverizações de agrotóxicos da soja. Aliás, os sojicultores são muitos em torno da área e dentro da terra indígena de cerca de 7 mil hectares.

Os Kaingang tiveram reconhecidas oficialmente suas terras e sua cultura com a portaria declaratória, publicada em outubro de 2007, a partir do estudo antropológico da professora Cecília Maria Helm, da Universidade Federal do Paraná. Ainda falta a homologação e a retirada definitiva dos não-índios da terra. Os registros oficiais analisados no estudo antropológico mostram a presença antiga dos Kaigang na região. Foram expulsos da terra quando os fazendeiros Juvenal Alves Pires e Antônio Alves Pires anexaram e arrendaram a terra indígena no início do século passado. Na década de 30, houve a titulação das terras sem considerar os direitos do grupo.

Depois de viverem mais de três décadas no “exílio” em outras terras indígenas, em 1995, um grupo de antigos moradores da Boa Vista se mobilizou e realizou uma retomada na terra tradicional. Montaram acampamento e, desde então, vivem uma atitude de permanente reivindicação do direito fundamental à sua terra tradicional. Contra eles, a pressão era constante, principalmente até a publicação da portaria que reconhece a terra. Houve até assassinato de um índio por peões da fazenda vizinha.

A situação amenizou-se nos últimos tempos segundo os próprios índios, embora a aldeia esteja cercada de uma plantação de soja transgênica, cujo agrotóxico traz incômodo para os Kaigang. Funcionários do arrendatário Otomar Civa, presidente da comissão dos não-índios da terra Boa Vista, fazem pulverização de agrotóxicos diante dos olhos e narizes de toda a aldeia, situada a menos de 20 metros do limite da plantação de soja.

“Olha a soja logo ali, ó. A gente sente o cheiro forte quando eles passam com agrotóxicos. Aí, muita gente sente dor de cabeça, as crianças ficam com diarréia, é muito ruim”, diz a liderança Lucas Kaingang. Até hoje, nenhum exame de contaminação da água e do solo foi feito no período próximo às pulverizações para checar o tamanho do impacto na água e na terra. Para o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a situação é uma forma de os fazendeiros manterem uma pressão, mesmo com o reconhecimento oficial da terra Kaingang.


(( Esta reportagem foi produzida para a ONG Repórter Brasil. Trechos dessa apuração entraram no relatório “O Brasil dos Agrocombustíveis – os impactos das lavouras sobre a terra, o meio e a sociedade”. Mais sobre comunidades indígenas na página 31 ))

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