Tesouro da música no jogo político

Samba e música clássica. Um barco dos Estados Unidos, com um estúdio de gravação, atracado no cais da Praça Mauá. Em 1940, alguns dos melhores músicos brasileiros e norte-americanos foram agentes do jogo diplomático da Segunda Guerra Mundial. Roosevelt e Getúlio, diálogo intermitente por conta da política pendular. O Brasil ainda não se posicionou diante do conflito mundial. (Corta)

Fuçando meus arquivos, lembrei de um assunto que gostei muito de pesquisar. A Missão Stokowski. Hein? Explico. Essa pauta eu transformei numa reportagem para a Revista Carta Capital, lá atrás, em abril de 2002. Aí, pensei. Vou colocar a dita no blog com uns áudios e umas imagens da pesquisa. Vai ficar bem melhor para ler, assim podendo ouvir. Eis o remix de uma reportagem. (Segundo corte)

Tesouro perdido da Missão Stokowski
Com a ajuda de Villa-Lobos e da nata da música brasileira, o maestro registrou 40 músicas no Rio, em 1940. A maior parte do material está sumida. Há planos de fazer um filme e lançar um CD com o que restou.

A política de boa vizinhança durante a Segunda Guerra Mundial foi a arma dos Estados Unidos para estreitar as relações culturais com o Brasil. Duas viagens ficaram famosas nesse período: a de Walt Disney, em 1941, e a de Orson Welles, em 1942. Mas, antes dos dois, outro artista ilustre já havia desembarcado em terras brasileiras para vender a idéia da unidade pan-americana. Leopold Stokowski, o maestro da trilha do filme Fantasia, protagonizou um flerte com a música brasileira. Um acontecimento que até hoje é pouco estudado mesmo nos livros de História do período.

Foi no dia 7 de agosto de 1940. Nesse dia chegou ao Rio de Janeiro o navio Uruguai, em missão oficial norte-americana. Não trazia somente militares. A bordo estavam Leopold Stokowski e os 109 músicos da All American Youth Orchestra, para apresentações no Teatro Municipal. Era a primeira parada de uma excursão pela América do Sul, que incluiu São Paulo e Buenos Aires.


Depois do concerto com direito a Brahms, Wagner e Tchaikovski, o regente Stokowski voltou ao navio para gravar música brasileira. Isso mesmo. Durante oito horas seguidas foram gravadas 40 músicas nacionais num estúdio da Columbia dentro do próprio Uruguay. No elenco musical, os melhores representantes brasileiros: de Pixinguinha a Cartola, de Villa-Lobos a Jararaca e Ratinho. Realmente uma jóia, ouro puro.

Essa é a história de Native Brazilian Music, um disco brasileiro lançado somente nos Estados Unidos. Uma gravação de pouca memória, mas um marco do namoro cultural dos dois países. Com um pé na política e outro na arte, o disco resultou inacabado. É uma propriedade dos gringos e, mesmo por lá, ficou esquecido. Os fonogramas originais até hoje estão desaparecidos.

Agora o Museu Villa-Lobos e a Academia Brasileira de Música planejam remasterizar o álbum em CD no Brasil. O diretor de cinema Marcelo Serra também tem um projeto para rodar um curta-metragem intitulado Missão Stokowski. Um mote para que a história renasça.

Quando Stokowski escreveu para o maestro Villa-Lobos, pedindo-lhe que organizasse artistas da legítima música brasileira para gravar um disco, não fazia idéia do que estava por vir. Reuniram-se o samba, a macumba, o choro, a embolada, o cântico indígena, o frevo e o maxixe. Atracado no armazém 4 do cais da Praça Mauá, o salão do navio, equipado com estúdio, ficou cheio de jornalistas, fotógrafos e músicos da All American Youth Orchestra. O Tio Sam viu nossa batucada. Provavelmente, numa das primeiras vezes.

Já era quase meia-noite quando começaram as gravações. Pixinguinha soprou seus solos de flauta por vários números. Segundo registros de O Globo, o solo de “Urubu Malandro” arrancou elogios: “Esse é um dos melhores flautistas que já ouvi”, disse um dos chefes de grupo da orquestra. Quem estava ali também presenciou o primeiro registro solo da voz de Cartola. Isso bem antes do seu primeiro LP, lançado pela gravadora Marcus Pereira em 1974.

Cartola cantou “Quem me Vê Sorrir”, “Tristeza”, “Meu Amor” e “Primeiro Amor”, todas com coro e batida da Velha Guarda. Villa-Lobos conhecia a roda da Mangueira como a palma da mão. Dela selecionou a macumba e o samba: Cartola, Zé da Zilda, Zé Espinguela, Aluísio Dias, e o coro das pastoras com Dona Neuma, Cecéia, Nadir, Ornélia, Guiomar, Nesília e Neguinha. Carlos Cachaça, assim como Ataulfo Alves, não foi porque estava trabalhando. O samba também viria representado por Donga, um amigo pessoal de Villa-Lobos, e que ajudou a selecionar os grupos musicais.

Donga deixou sua marca. Depois do clássico “Pelo Telefone”, o primeiro samba registrado no Brasil, emplacou outras oito canções que foram selecionadas para o álbum. A essa altura, até o capitão do grande navio sentou-se para apreciar os brasileiros.

O pai-de-santo Zé Espinguela, conhecido também como Pai Alufá, trouxe o ritmo marcante da origem africana. Macumba de Oxóssi e Macumba de Iansã devem ter incomodado bastante os ouvidos clássicos de quem ainda rejeitava o popular. Mais cômico somente imaginar o erudito Stokowski assistir à embolada de Jararaca e Ratinho: “O sapo dentro do saco,/ o saco c’um sapo dentro,/ o sapo batendo papo,/ o papo fazendo vento”.

No salão foi servido um banquete. No livro Cartola: Todo o Tempo que Eu Viver, do cineasta Roberto Moura, Dona Neuma se lembra: “Eu ainda era criança… foi a primeira vez que nós comemos peru com abacaxi, carne de porco com ameixa, um jantar luxuoso. O samba rolou até de manhã. Nós cantamos num palco, ele (Stokowski) regendo”.

Regeu, mas pouco. Stokowski retirou-se para seu quarto por volta das 3 da manhã. Deixou as gravações sob o cuidado de seu assessor, Michel Meyeberg. Os números continuaram com Zé da Zilda, João da Baiana, Luís Americano, Paulo da Portela, Laurindo de Almeida, Augusto Calheiros, David Nasser, Janir Martins.

Toda essa epopéia tem um outro lado, o político. Em fevereiro de 1940, Stokowski enviou uma carta ao secretário de Estado Cordell Hull pedindo para excursionar com sua orquestra pela América do Sul. A resposta chegou rapidamente, 12 dias depois. Era um “sim” bem largo com a aprovação do presidente Roosevelt. Em tempos de guerra, cativar laços com o vizinho verde-amarelo não era perda de tempo. Ainda mais com as suspeitas de que Getúlio Vargas poderia trocar figurinhas com o nazismo.

Foi quando Heitor Villa-Lobos recebeu a carta de Stokowski, que pedia o favor de organizar músicos da legítima música brasileira para uma gravação a ser utilizada num futuro Congresso Pan-americano de Folclore. Uma tentativa de unir a América por laços culturais. Só que o evento nunca iria acontecer.

Donga selecionou os músicos a pedido do próprio Villa-Lobos. Donga era rato das rodas de samba e de candomblé. Era amigo de Pixinguinha e Zé Espinguela, dois grandes conhecedores da nossa música. Com o projeto feito, Donga pediu, por carta, um “adeantamento” em dinheiro para o cachê dos grupos. Villa-Lobos vai além. Pede a Stokowski US$ 500 (em valores da época) e faz a exigência de que cópias dos originais fiquem no Rio.

Não há registro algum de que esse dinheiro chegou nem que os originais ficaram por aqui. A filha de Donga, Lygia Santos, confirma que o pai não recebeu um tostão. Cartola, um ano e meio depois, recebeu “1$500”, o que comprava só três maços de cigarro. Sobre o restante do grupo? Ninguém recebeu nada.

Parecia um pouco desleixado demais, para não dizer uma jogada política. O jornal Folha da Manhã cita que, na missão oficial, também chegaram tenentes da Aeronáutica americana e outros oficiais. O major Edwin Luther Sibert é um exemplo. Novo adido militar, ele falou ao jornal que seu cargo no Brasil seria muito importante. Quem enfatizou isso a ele, afirma, foi o próprio general George Marshall.

O presidente Roosevelt, no mesmo dia da chegada do navio, afirma nas páginas do Jornal do Brasil: “Falando à imprensa, o presidente Roosevelt diz que a unidade pan-americana é agora, sem dúvida, um fato muito mais concreto do que em qualquer ocasião anterior”.

Aqui já estava o coronel americano Lehman Miller, que foi receber o navio no cais. Miller era o chefe da missão militar americana para estudar a defesa da costa brasileira. Um documento secreto, citado por Moniz Bandeira, no livro Presença dos Estados Unidos no Brasil, mostra o coronel como autor do plano de “utilização” das bases, portos, estradas e comunicações do Brasil pelas Forças Armadas americanas, caso se tornasse necessário. Fez também um pedido pessoal ao general Góes Monteiro para que mobilizasse a opinião pública a favor dos americanos. Tinha caroço nesse angu.

“Já não pertence mais à praça. Já não é samba de terreiro. Vitorioso ele partiu para o estrangeiro.” Foi assim como canta o samba de Cartola e Carlos Cachaça que Native Brazilian Music começou a ficar no esquecimento. Os próprios livros de história sobre a política da boa vizinhança não citam Stokowski como personagem importante.

Se a viagem não rendeu um disco com a propaganda que se esperava, ela foi pelo menos uma das primeiras tentativas de aproximar as duas almas americanas. Os principais dados existentes sobre essa viagem estão nos livros Pixinguinha – Filho de Ogum Bexiguento e Cartola – os Tempos Idos, os dois de autoria de Marília Barboza e Arthur de Oliveira.

Foi lendo e procurando os detalhes que a jornalista americana Daniella Thompson se atolou até o pescoço com a história. Aos 56 anos, é formada em Literatura Inglesa pela Universidade de Tel-Aviv, em Israel. Roteirista e jornalista, Daniella apaixonou-se pela música brasileira. Começou a escrever para uma revista mensal de Los Angeles, chamada Brazzil, na qual publicou um grande artigo sobre o disco quando a história completou 60 anos.

Ela relembra no texto que a viagem de Stokowski foi anterior à criação de Zé Carioca, por Walt Disney, e às filmagens de Orson Welles para o documentário It’s All True. Com um grande panorama do disco, Daniella começou uma busca desenfreada pelos 40 fonogramas originais, que, em tese, deveriam estar nos arquivos da Columbia, hoje pertencentes à Sony Music americana. “A gravadora nunca respondeu a meus pedidos de procura e não há pistas sobre a possibilidade de estarem no Brasil”, diz.

Daniella Thompson aponta os descuidos com a gravação. Tinha problemas na qualidade do som, o que, para ela, pode ter feito várias músicas serem descartadas. “O técnico de som era norte-americano – pouco familiar com música e instrumentos afro-brasileiros – e ele teve de se contentar em gravar até o último dos 40 números em uma única sessão. Esse era apenas o primeiro sinal de que o bom vizinho do Brasil não dava muita importância para a música.”

De concreto mesmo só a certeza de que a excursão de Stokowski existiu e de que o disco, com 16 músicas, foi lançado às pressas e com muitas imperfeições. A mágica da política.

O desleixo dos gringos
Só 16 das 40 músicas foram aproveitadas no disco americano. Quase todas as faixas saíram com erros grosseiros de grafia

O nome do lançamento foi Columbia Presents – Native Brazilian Music – Leopold Stokowski. Dois 78 rotações com quatro músicas de cada lado. De um total de 40 gravações feitas no navio, apenas 16 foram aproveitadas. Ficaram belas músicas, perderam-se raridades. Um tesouro rachado ao meio.

A deficiência na qualidade de som pode ter vitimado composições como Urubu Malandro, de Pixinguinha. De Cartola somente Quem me Vê Sorrir foi encaixada. Samba da Lua e Sofre quem Faz Sofrer, de Donga e David Nasser, também ficaram para trás.

Mas o pior está por vir. Marília Barboza e Arthur de Oliveira reproduzem em seus livros os erros na grafia dos nomes dos autores e das músicas, que estão em quase todas as faixas: “Jose Espingucla, Rae Alufá, Samba Concao, Macumba de Ochocê, Tocanda pra voce, Passarinho baleu asa, Zamba”, etc. Frustrante para qualquer um.

A capa do álbum possui a silhueta de três rostos, cada um representando as raças formadoras do Brasil. O texto de apresentação afirma que Stokowski escolheu o que pensou ser o melhor e o mais típico. Ele selecionou e supervisionou pessoalmente as gravações. Propaganda demais, mas pouco resultado para quem se dizia amante da cultura brasileira.

Em 1987, o Museu Villa-Lobos lançou o disco remasterizado em long-play. Até então, uma das únicas gravações que estavam no Brasil pertencia ao crítico de música Lúcio Rangel. Justamente um amigo dele, o pesquisador Suetônio Valença, acabará sendo o responsável pela edição brasileira de Native Brazilian Music.

A edição foi limitada e logo se esgotou. Os encartes possuem referências sobre a política da boa vizinhança, um texto do historiador Ary Vasconcelos e as correções dos nomes das músicas. É sensacional escutar o samba “Seu Mané Luís”, o maracatu Zé Barbino, a embolada “Sapo no Saco” e os cânticos indígenas do coro do Orfeão Villa-Lobos.

“Para mim, o disco é uma síntese da música popular da época. É um documento importante sobre o momento em que a música vivia”, afirma Suetônio. Será essa edição que ganhará o suporte digital do CD. “Já temos a verba, só falta a autorização da Sony Music, que tem os diretos da Columbia”, diz Turíbio Santos, diretor do museu.

Nas telas, a visão de uma tragédia
O cineasta Marcelo Serra planeja filmar Missão Stokowski, com o diretor José Celso Martinez no papel do maestro estrangeiro. Tal qual o drama dos jangadeiros, filmado por Orson Welles, Native Brazilian Music tem tudo para virar uma produção para o cinema. O diretor Marcelo Serra tornou-se mais um apaixonado pela história. “Ao mesmo tempo que é sensacional pelos detalhes, é uma tragédia. A gravação da cultura brasileira foi tratada somente para instrumento da política da boa vizinhança”, define.

A trajetória do disco da Columbia seria contada na produção Missão Stokowski, que já tem projeto pronto. Embora esteja à espera de recursos para iniciar a filmagem, Marcelo já rodou algumas entrevistas com pesquisadores do disco, inclusive a jornalista Daniella Thompson. Esse material renderia um documentário, só que a sua idéia principal seria fazer uma releitura do acontecimento. Um curta-metragem atual de uma história antiga.

“Além da ausência de imagens de época para só um documentário, eu gosto de jogar com esse dueto realidade e ficção”, explica Serra. “Seria uma mistura de esquetes com realidade para parodiar passagens e encontros de artistas, aproximando o erudito do popular.” Para dar uma visão atual, Marcelo mostraria o que há de mais autêntico na música brasileira hoje.

Para o elenco, Serra quer convidar Paulo Moura para viver Pixinguinha, Seu Jorge para Zé Espinguela e Yamandú Costa para Villa-Lobos. José Celso Martinez, “o melhor maestro de atores que conheço”, elogia o cineasta, já aceitou fazer o maestro Stokowski. O roteiro ainda possui o enigmático personagem Mr. Broadcast, responsável por manipular a própria trama e jogar ao mar os originais das gravações recém-saídas do forno. Marcelo Serra aguarda o financiamento das produtoras às quais entregou o projeto. É esperar para ver.

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