A globalização, o Haiti e os trabalhadores

Nesse post, vou misturar tecidos brasileiros, capitalismo, globalização, Haiti, diplomacia, Estados Unidos e direitos trabalhistas. Quem conseguir avançar na leitura verá que está tudo conectado. É só embaralhar as cartas. Começo com a notícia propriamente dita para não desabar o ímpeto voraz do consumo midiático. Voltemos os olhos então para os relatos de nossa diplomacia. Ponto um.

A repórter Sabrina Craide, que começou na Agência Brasil quando eu era editor por lá, está em cobertura especial nesta semana direito de Nova York. Em uma entrevista, o ministro Celso Amorim falou que indústrias brasileiras se interessaram em criar unidades no Haiti para exportar produtos para os Estados Unidos. Isso ele conversou com a secretária de Estado, Condoleezza Rice.

Essa postura se explica facilmente pela comitiva de empresários que o presidente Lula levou ao Haiti em sua última visita. Numa clara tentativa de impulsionar as relações bilaterais e a quantidade de investimentos num país desprovido de petróleo, de agricultura frágil e com poucas alternativas de negócio. Mas ainda assim uma tentativa de redirecionar o foco da ação brasileira no Haiti.

Ponto dois. Agora quero junto um post do blog do Leonardo Sakamoto, que comentou os recentes exemplos de indústrias têxteis que se instalaram na China em busca de custos de produção mais baixos do que no Brasil. Lê-se exploração do exército de trabalhadores. Sakamoto alerta para a necessidade de pressão sobre países e empresas que tenham produtos com origem duvidosas sob o prisma trabalhista.

O que ele propõe é a reflexão sobre o consumo ou não de produtos originados em cadeias produtivas mais “baratas”, que significam, na maioria das vezes, conivência com a superexploração do trabalho. E de que forma os consumidores comuns e a sociedade podem cobrar as posturas de governos e empresas. O cerne do que acostumou-se a chamar de consumo consciente.

Ponto três. Uma sinapse bibliográfica me ocorre. Numa velha edição de 1995 da Foreign Affairs, o japonês Eisuke Sakakibara sentencia: “A globalização da economia leva à oligopolização do mercado mundial e, o que é mais grave, faz com que os interesses dos trabalhadores e consumidores passem a divergir”. Retomo o raciocínio da etapa anterior e digo: preços e direitos estão de lados opostos no capitalismo.

Ponto quatro. No Haiti, articulação de várias entidades na Missão Internacional de Investigação e Solidariedade apontou a preocupação de que o país seja transformado num quintal de “maquiladoras” e de fábricas que pagam proporcionalmente menos aos haitianos. Isso já acontece com filiais norte-americanas, canadenses e dominicanas, como denunciam organizações e sindicatos por lá.

A conclusão. Ninguém aqui está prejulgando que qualquer empresa brasileira que vá para o Haiti esteja com o objetivo implícito de escravizar trabalhadores. Mas fica o alerta de que um país tão empobrecido quanto o Haiti precisa muito mais de alternativas vinculada aos direitos e à justiça financeira. Sob o risco disso contradizer o próprio discurso de solidariedade que tantos sul-americanos pregam.

Anúncios

2 comentários sobre “A globalização, o Haiti e os trabalhadores

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s