Artista imortaliza espécies em extinção em xilogravuras

copaiba

Lá nas primeiras folhas de Grande Sertão: Veredas tem uma frase rosiana assim: “Perto de muita água, tudo é feliz”. Assim é possível comparar a sensação da artista Angela Leite, 59 anos, quando viajou pelas veredas mineiras à procura de uma lagoa.

Não qualquer uma, mas uma lagoa descrita na segunda década do século XIX pelos naturistas Carl von Martius e Johann Baptiste Spix, ambos nascidos na Alemanha, mas que fizeram uma expedição para registrar a biodiversidade brasileira da época.

Angela Leite reencontrou uma lagoa com traços da moderna destruição ambiental. Desmatamento de parte da mata ciliar e pasto para gado. É certo que parte parece sobreviver melhor. “Mas por quanto tempo?”, pergunta.

Seu trabalho parte da resistência ao tempo. Desenvolve um tema constante na sua carreira artística: a luta pela preservação da biodiversidade. Forja em matrizes de madeira as imagens de espécies ameaçadas. Que serão imortalizadas em xilogravuras.

– A escolha da xilogravura não é por acaso. É interessante pensar que a técnica é capaz de reproduzir em grande quantidade o número de obras. Para cinqüenta, cem, cento e poucas impressões. Você multiplica a imagem da espécie que está perdendo indivíduos.

A reprodutibilidade na contramão da destruição ambiental. Para ela, uma forma militante da ecologia. “Mais pessoas terão acesso a essa imagem e elas são possíveis parceiros da sua luta, possíveis defensores daquela espécie“, explica.

Na opinião de Angela Leite, o debate sobre a preservação ambiental ganhou força com uma data marcada – a Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, em 1972, em Estocolmo, na Suécia.

– A partir daí, os países começaram a procurar o que corria risco de extinção no seu território. Surgiram as listas de espécies ameaçadas de extinção. Para mim, as listas estão em segundo plano, porque hoje, não tenho dúvida, todos os animas correm algum tipo de ameaça”, diz.

Entre os animas totalmente extintos no Brasil que retratou, cita a arara cinza-azulada (anodorhynchus glaucus), antiga habitante das barrancas dos morros do sul do país. “Essa ave vistosa já desapareceu do território brasileiro”, explica.

Angela já fez exposições em vários estados brasileiros. E até fora do país. Inclusive no Museu da Coleção Zoológica de Munique, de onde saíram von Martius e Spix para suas expedições naturalistas no Brasil-colônia. “Foi uma honra para mim”, lembra. “Uma coincidência expor de onde eles saíram para fazer os belos registros da biodiversidade brasileira”.

Formada em filosofia, é artista plástica autodidata. Também integra a organização não-governamental Rede Pró-Unidades de Conservação, que reivindica do governo federal o reconhecimento de áreas protegidas.

O destaque da capa de Terra Magazine de hoje (27/02/2009) é uma tartaruga-de-pente (eretmochelis imbricata). A inspiração da xilogravura? As fêmeas que, depois de adultas, retornam às praias onde nasceram para procriar.

Obs.: texto publicado originalmente no site Terra Magazine, de Bob Fernandes, em fevereiro de 2009.

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