Lançamos uma rede de comunicadores, intelectuais, artistas e ativistas para discutir o futuro do Haiti nesse momento em que a tragédia do terremoto assombra o país. O projeto Haiti.Org começa como um site jornalístico sobre o Haiti, que reúne, em primeira mão, notícias, produções multimídia, análises críticas, artigos e entrevistas, documentos e traduções, por meio do trabalho de jornalistas independentes e usuários colaboradores. Será espaço de jornalismo independente, solidário e colaborativo. É resultado do trabalho desenvolvido e coordenado pelo mim, Aloisio Milani, em parceria com os jornalistas Rodrigo Savazoni e André Deak. E aberto a todos que queriam se solidarizar com o Haiti e colaborar com alternativas concretas para sua reconstrução. Para saber mais, vá para a página do projeto. Nos próximos dias estarei por lá a escrever e articular ações relacionadas ao tema.

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Artigo meu publicado para o site OperaMundi, disponível neste link aqui.
Não foi só ontem, não é só hoje. O Haiti vive um “estado de sítio” constante. Quando não “treme” pela pobreza extrema – aqui entendida como desemprego epidêmico, fome crônica e a ausência de saúde e educação públicas -, é a vez das crises políticas e das tragédias naturais: tempestades tropicais, enchentes e furacões. Para dar um exemplo, quatro furacões deixaram cerca de mil mortos e 18 mil desabrigados em 2008. Corpos apodreciam na água das enchentes, não havia estrutura de socorro, o dinheiro e a ajuda humanitária chegavam lentamente. Há pouco, semanas atrás, acabou a temporada de furacões na América Central e, agora, o país se debate com um surpreendente terremoto de magnitude inédita nos últimos 200 anos.
Aliás, dois séculos atrás é aproximadamente o tempo histórico da vitória da única rebelião de escravos que levou à independência de uma nação desde a Antiguidade clássica. Um passado glorioso que vem sendo ofuscado por um presente de pobreza e crises. Desde a deposição do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, em 2004, a situação política oscilava entre momentos de paz, violência e fragilidade política. Mas a pobreza resistia. E a cada fenômeno natural, o espectro da destruição pairava sobre eles. A diferença é que desta vez, a tragédia une brasileiros e haitianos. Haverá mais confirmações de mortes entre os brasileiros capacetes azuis e diplomatas da ONU. A médica Zilda Arns teve ironicamente sua vida ligada ao país do continente americano com um dos piores índices de desnutrição e mortalidade infantil, onde queria implantar as bases da Pastoral da Criança.
O impacto do terremoto sobre o Haiti é brutal porque seu epicentro foi muito próximo de uma das regiões mais populosas, a capital Porto Príncipe. O país tem um território comparável ao de Alagoas, com cerca de 8 milhões de pessoas. Mais ou menos 3 ou 4 milhões vivem só na capital, em favelas de tijolos frágeis, de estruturas baratas, improvisadas. Na cidade, onde os ricos moram nos morros e os pobres na parte plana próxima ao mar, o impacto foi maior em bairros com construções de mais de um piso. A região do Palácio do Governo, vizinha da favela de Bel Air, foi destruída. A situação se repete em bairros mais horizontais, como Carrefour, Delmas e Cité Militaire. Na região de Cité Soleil, de barracos de zinco e tijolos finos, os danos não foram menores.
O distrito de Petion-Ville, no alto da cidade, onde ficam as sedes das embaixadas e organizações internacionais, sofreu grande impacto. Até o Hotel Montana foi atingido, um quatro estrelas versão haitiana, onde morreu o general brasileiro Urano Bacellar em 2006. Passarão semanas para as contagens dos mortos e desaparecidos. O Palácio do Governo, que desmoronou quase completamente, era um centro político e uma espécie de residência do presidente. No hall revestido de mármore sob a cúpula central do palácio, ficavam as estátuas de Simon Bolívar e Alexandre Petion. Frente a frente. A poucos metros da vista ampla da planície da praça. Esses símbolos foram completamente soterrados no terremoto.
Um país imóvel
Vale lembrar que, em novembro de 2008, uma pequena tragédia se abateu sobre o distrito de Petion Ville. Ali, sem temporal, sem vento, sem terremoto, a escola primária La Promésse desabou. Simplesmente veio abaixo pela precariedade de sua construção. Matou cerca de 100 crianças e feriu outras 150. O presidente haitiano, René Préval, disse na época que a fragilidade e a debilidade do Estado permitia a existência de construções precárias e ocupações ilegais, o que aumenta a possibilidade de vítimas. O Haiti tentava reestruturar seu Estado com a ajuda da quinta missão de paz da ONU nas últimas décadas. Mas ainda não havia um sistema de defesa civil estruturado, o que vai piorar a situação agora no socorro e atendimento a feridos. Quem não morreu diretamente pelo terremoto corre o risco de morrer por falta de estrutura de bombeiros ou atendimento médico.
Porto Príncipe já possuía uma infra-estrutura precária. Energia elétrica era luxo. Quem tinha convivia com apagões diários. A distribuição de água era feita, muitas vezes, por caminhões-pipa e fontes de água. Em bairros inteiros, a população se abastecia com baldes. Cité Soleil, a maior favela da cidade, era um exemplo. Agora, com o terremoto, a estrutura de abastecimento de água também sofreu. Num país que importava mais da metade da comida para manter as necessidades básicas da alimentação de seu povo, a água voltou a ser escassa. Todo o combustível do país também é importado. Dificilmente um plano de emergência, com o envio de maquinário pesado, conseguirá colocar em prática um mutirão de salvamento em grande escala para evitar mais mortes. O país está quase imóvel dois dias após o abalo principal.
A ajuda da ONU e a dívida externa
O número de mortos – ouve-se agora uma estimativa do governo haitiano de cerca de 50 mil – seria pelo menos cinco vezes maior do que o total de brasileiros enviados à missão de paz das Nações Unidas nos últimos seis anos. O terremoto deve aproximar mais Haiti e Brasil. Nos últimos tempos, nossos enlaces com o país caribenho aumentaram. Além dos capacetes azuis, ativistas, acadêmicos e religiosos procuravam estreitar relações com o povo. A estrutura da ONU no país sempre esteve longe de mudar o perfil da pobreza e das necessidades básicas para o país se reerguer: trabalho, saúde, educação. Iniciativas como a da médica Zilda Arns eram um pedido de entidades haitianas desde a chegada da ONU por lá, há seis anos. Envio de médicos, engenheiros agrônomos, professores, gestores públicos, entre outros. Tudo que vai faltar em dobro agora.
Do fim da vida de Zilda Arns no Haiti, cabe ainda um recado, acredito. A mudança no perfil da missão da ONU no Haiti é urgente mais uma vez. O estágio relacionado à segurança pública pode ter sido questionável, mas há tempos foi superado. Temos a oportunidade agora de ajudar com menos tropas militares e mais parcerias para a reconstrução e desenvolvimento do Haiti. A começar pelo perdão da dívida externa de cerca de 2 bilhões de dólares, uma porcentagem ínfima na comparação com os rios de dinheiro que os países ricos gastaram para socorrer o sistema financeiro internacional da gana de seus próprios especuladores.
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Mesmo com poucos pontos de acesso a internet, fotos do impacto do terremoto no Haiti podem ser encontradas no Flickr e algumas agências de notícias. Fiz aqui abaixo uma seleção de usuários que estão atualizando desde antes de ontem. Estimativas do governo balançam entre 50 e 100 mil mortos. Ou seja, não existe ideia exata sobre quão grande é a tragédia. Sabe-se apenas que é gigante, a maior da história do Haiti.





Miami Herald, Washington Post, The Salvation Army, Jurnal.md, Moskom, Catholic San Francisco, Agência Brasil, Cáritas Internacional, IRFC, Disasters Emergency Committee (…) [em atualização...]
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Estou tentando contactar amigos e conhecidos no Haiti. Pelas informações que obtive, a situação é uma calamidade imensa. Os bairros pobres também foram ao chão, o trânsito é quase impossível, falta ajuda para quase todos, a torre de controle do aeroporto ruiu, pessoas estão nas ruas atônitas, esperando socorro médico que não vem de lugar algum. Os hospitais que ficaram de pé não conseguem mais atender tanta gente. Poucos telefones funcionam, o contato com a capital, que já era dificílimo, ficou quase impossível. Conversei com uma pessoa no porto da cidade e ela comentou que as entradas das favelas de Cité Soleil e da zona portuária estão um caos.
Se o mais forte dos últimos furacões no Haiti matou algo em torno de 1 mil pessoas, o número agora pode ser bem maior, porque há muitos estragos na capital do país, Porto Príncipe, a região mais densamente povoada. Há mais brasileiros entre os mortos do que apenas os primeiros confirmados e de Zilda Arns. Essa é só a tragédia que nos une. Para o povo haitiano, também será hora de contar intelectuais, militantes e um sem-número de pessoas que podiam ajudar a impulsionar um novo Haiti – da política, da justiça social e dos direitos humanos. Pense em “Zildas Arns” haitianas que podem ter morrido. Esperar para ver. Reze pelo Haiti.
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Aqui, abaixo, texto do site Opera Mundi sobre a renovação da missão das Nações Unidas no Haiti. A autora é a Kivia Costa, que conversou comigo por telefone.
A Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), renovada no mês passado até o final de 2010, deve permanecer no país caribenho por mais um ano depois disso, segundo o oficial de comunicação social do exército brasileiro, coronel Gerson Pinheiro Gomes.
Para o porta-voz, a missão de controlar militarmente o Haiti vem sendo passada para a polícia local, mas a segurança dificilmente será mantida a curto prazo sem a ajuda da Minustah. “No interior até conseguiríamos [fazer a transição], mas na capital a situação é mais complicada”, explicou em recente entrevista coletiva em São Paulo.
Na avaliação do jornalista Aloísio Milani, que escreve um livro-reportagem sobre a presença de tropas estrangeiras no Haiti, a permanência da missão brasileira já era esperada. “Quando o Brasil entrou na missão, em julho em 2004, ele já tinha uma perspectiva de longo prazo”.
Para ele, a renovação feita pelas Nações Unidas foi uma mera formalidade, pois não a condicionou a um plano de saída do país. Conforme explica Milani, “a ONU tem grande medo de fracassar no Haiti, como aconteceu nas últimas quatro vezes, mas, ao mesmo tempo, não dá as condições para o país se desenvolver sozinho”.
No entender do jornalista, grandes alterações só devem acontecer a partir de 2011, quando haverá eleição presidencial no Haiti, a segunda desde a criação da Minustah. “Vários membros do governo brasileiro e de outros países já deram declarações dizendo que o formato da Minustah deve continuar até 2011.”
O coronel Pinheiro confirma que a configuração das tropas brasileiras deve ser mantida até aquele ano. Segundo ele, a infantaria deve encolher e o contingente de engenheiros militares e pessoal de apoio deve aumentar, mas o novo presidente dirá se quer ou não manter as tropas estrangeiras.
Segundo Pinheiro, hoje, só a polícia haitiana pode fazer prisões. Ela também seria responsável por controlar as manifestações populares. “A TV haitiana não coloca no ar nada com tropas estrangeiras. Hoje, o importante é mostrar que a policia local paulatinamente dá conta da situação.”
Jogo político
O coronel não esconde que o Brasil tem interesses diplomáticos com a ação no Haiti, como conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança na ONU. Segundo ele, o Brasil “não está no Haiti por uma estratégia militar, mas por uma estratégia de governo. Essa é uma decisão política”.
De acordo com o coronel, haveria um entendimento por parte da ONU de que a presença brasileira no Haiti atrapalharia a participação de outros países da América do Sul. “É a primeira vez que tem uma missão com forte presença de países do sul e poucos países desenvolvidos”, ele destacou.
Os maiores contingentes militares no Haiti vêm de países em desenvolvimento. O Brasil é a nação que mais soldados enviou (1.282), seguido pelo Uruguai (1.135) e pelo Nepal (1.075). Países europeus e norte-americanos têm um contingente ínfimo na Minustah. “A prioridade dos Estados Unidos e do Canadá é hoje o Afeganistão”, comentou o coronel Pinheiro.
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Pesquisadores e músicos indicam que a viola vive seu período mais fértil na música. Ligada às tradições populares – e, por muito tempo, rejeitada no cenário nacional –, a viola agora tem seu auge com um sem-número de instrumentistas, compositores e mestres. Deixou de ser som de acompanhamento de cantores para abrir, entre roças e cidades, uma nova fronteira melódica e harmônica. Por Aloisio Milani
(Texto publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, edição outubro 2009)
Os dedos de Almir Sater ponteiam um blues. O ganso é o nome da música. Composição própria, tocada no palco do programa Viola, minha viola, da TV Cultura, sob o olhar atento da cantora e folclorista Inezita Barroso. O templo da música caipira muda naquele momento. Pelas suas mãos, o Pantanal se aproxima do Mississipi. Almir toca de óculos. Repousa o pé direito sobre o esquerdo, um tipo de suporte próprio para a viola se moldar ao corpo. O blues segue acompanhado pelo violão do irmão mais novo, Rodrigo Sater, que pouco tempo depois repetirá a saga de peão-violeiro em novela – dessa vez, a escolhida é a trama Paraíso, da TV Globo. Mas ali, atrás do palco do blues caipira, na coxia, há algo mais importante. Os violeiros Roberto Corrêa, Paulo Freire e Adelmo Arcoverde observam atentos a apresentação – todos são virtuoses das dez cordas. Mais que regionalistas, eles integram uma geração de instrumentistas brasileiros que conseguiu deslocar a viola para um novo patamar: o de instrumento complexo, de sonoridades amplas, que bebe na inspiração das tradições e voa alto, incorporando novas referências e elementos eruditos e populares.
Ao lado de Almir, o grupo se apresenta como parte do projeto “Violeiros do Brasil”, idealizado e dirigido pela produtora Myriam Taubkin. É um registro de 13 violeiros selecionados em dois momentos: 1997 e 2008. Na década passada, o encontro resultou em um disco ao vivo e ajudou a dar visibilidade para um movimento de contemporanização da viola, com novos instrumentistas e influências. “A viola já tinha mudado. E ali começou a mostrar sua força”, lembra Paulo Freire. Mas voltemos à apresentação televisiva do grupo. A música após o blues de Almir Sater encerrará o programa. Todos juntos farão um arranjo clássico para a voz de Inezita Barroso. Ansioso, o pernambucano Adelmo Arcoverde pergunta: “Que tom ela canta?”. Roberto responde sério: “Si”. A pegadinha faz tremer o rosto do experiente professor e improvisador Adelmo. “Si” é um tom complicado, que exige acordes com pestanas. Com cinco sustenidos, é quase impossível fazer rápidas e precisas progressões na escala. Silêncio estratégico. Depois, risos. A piada se desfaz. Paulo e Roberto se desmancham. E entram no palco. Tocam Boiadeiro errante em “Sol”.
“A viola é passado, presente e futuro”, sentencia Roberto Corrêa, físico graduado e um dos principais violeiros dessa geração, com um intenso trabalho como pesquisador da área. “O que se vê de mais interessante no atual cenário musical brasileiro é o que se tem feito com a viola”. De instrumento incrustado nos rincões do Brasil, servindo de base para cateretês, cânticos religiosos e brincadeiras pagãs, ela rompe o preconceito de ser caipira e se torna contemporânea. É capaz de se misturar a instrumentos de música clássica e aos populares – clarinete, flauta, cello, fagote, piano. “Ela vai no caminho inverso de outros instrumentos, porque há pouca coisa escrita. Não veio do erudito, como o piano, por exemplo, e se popularizou depois do violão”, explica Myriam Taubkin. Para entender essa evolução, é preciso voltar um pouco na história e localizar a origem deste instrumento idiomático. A âncora da tradição nasceu portuguesa e abrasileirou-se.
A evolução
Caipira, nordestina, de arame, cinturada, cantadeira, do capeta ou devota. A viola brasileira pode ter muito nomes e apelidos – aliás, tantos quantos se possa imaginar –, mas sua estrutura é semelhante ao instrumento que desembarcou no Brasil com os colonizadores portugueses. Dez cordas presas nas extremidades e com uma caixa de ressonância de madeira em forma de oito. “A viola veio com os jesuítas para a catequese. Os índios adoravam as escalas musicais. Os cantos eram de devoção. Nossa música paulista começou santa”, relata Inezita Barroso. Em seu apartamento, em São Paulo, Inezita guarda a relíquia de uma imagem de São Gonçalo, o santo violeiro que encantava as mulheres de “vida fácil” com danças, para que elas não caíssem nos pecados da carne. Assim, ganhava força a mística do tocador de viola. Ele era visto como alguém que enfeitiçava as mulheres, ainda que exista quem encontre outras fontes de inspiração para os solos e melodias.
A capacidade de tocar viola sempre esteve ligada a uma espécie de pacto com o lado espiritual. Geralmente com um ente avesso a santos, anjos e querubins. Segundo as tradições populares, era mesmo o diabo que fazia um bom violeiro. Tal como acontece com os tocadores de blues norte-americanos. Robert Johnson, dizem, teria feito um. Receitas não faltam para encontrar o diabo. Paulo Freire, jornalista por formação e violeiro por adoção, conta que o bom mesmo é meter a mão em buraco de igreja do interior. Depois de sentir os dedos quebrados pelo tinhoso, os ponteados estarão todos morando na sua mão. “Funciona”, brinca. O anedotário rural ainda recomenda botar um guizo de cascavel dentro da viola. Uma pesquisa de Mário de Andrade sobre a cultura popular, na década de 1920, registrava que o guizo da cobra dá bom som para o instrumento. Mas na pequena Pindamonhangaba, interior de São Paulo, havia violeiro que tinha um pé atrás com o conselho. “O guizo melhora o som, mas não presta, porque seis meses depois vira a própria cascavel”, registrou o inquérito do escritor modernista.
A viola e seus trejeitos foram passados no boca a boca por muito tempo. Durante a colonização, os bandeirantes a levaram sobre as mulas e cavalos para o interior do Brasil. O isolamento geográfico a aproximou cada vez mais dos temas rurais, tornando-a um instrumento do campo. Só veio a ter algum registro musical bem mais tarde, com pesquisadores. Entrou para a indústria fonográfica por iniciativa pessoal de um folclorista da cidade paulista de Tietê: Cornélio Pires, que pagou do próprio bolso a gravação que a dupla Mariano e Caçula fez da música Jorginho do sertão. O sucesso de Cornélio foi estrondoso. Cinco mil cópias vendidas em 20 dias na carroceria de um caminhão pelo interior. Lançou-se para a história como um dos primeiros “produtores independentes” do país. Um mercado que a elite desconhecia. E detestava.
A música caipira, com a viola no prumo, seguiria como um gênero do interior por décadas a fio. Os principais nomes? Raul Torres e Florêncio, Capitão Furtado, João Pacífico, Tonico e Tinoco, Luizinho, Limeira e Zezinha, Vieira e Vieirinha, Carreirinho, Nenete e Dorinho, Jacó e Jacozinho, José Fortuna e Pitangueira, Tião Carreiro e Pardinho, Pena Branca e Xavantinho, Zé Mulato e Cassiano, e tantos outros que não cabem nestas linhas. Dessa lista sem-fim, um músico foi especial: Renato Andrade, cujo trabalho abriu nova trilha para a viola caipira. Mineiro de Abaeté, ele teve formação clássica para o violino, mas trocou de instrumento. Amadureceu uma técnica espetacular para tocar viola. Suas músicas eram verdadeiras novidades melódicas. Autossuficientes. Renato as nomeava como causos rurais: O jeca na estrada, Prelúdio da inhuma e Sinhá e o diabo. Entre suas qualidades também se destacava a de contador de histórias. A receita do pacto do diabo para os violeiros se popularizou em suas apresentações. “Tinha hora que dava para acreditar que ele tinha pacto com o demo mesmo. Era muito som para pouco dedo. Parecia que ele tinha mais de duas mãos”, fala Paulo Freire.
Viola na vanguarda
O primeiro registro do projeto “Violeiros do Brasil”, da produtora Myriam Taubkin, contou com a presença de Renato Andrade e de Zé Coco do Riachão, dois mestres do gênero. Na segunda edição, ambos já tinham morrido, mas os 11 demais são unânimes em avaliar a genialidade musical dos companheiros. “Renato Andrade fez história. Tenho como certo que podemos avaliar o movimento da música de viola antes e depois dele. É um divisor d’água da viola no Brasil”, diz Pereira da Viola, mineiro do Vale do Mucuri. O legado artístico de Renato tem pelo menos quatro discos fantásticos. E uma rapidez inacreditável nos dedilhados. Uma vez, o jornalista José Hamilton Ribeiro, veterano amante dos caipiras, calculou, em uma reportagem do Globo Rural, que Renato Andrade era um dos músicos mais rápidos do mundo. “Era mais rápido que os mais rápidos instrumentistas eruditos”, diz.
Renato trouxe para muitos instrumentistas o caminho das experimentações. Ivan Vilela, mineiro de Itajubá, foi um deles. Apaixonado pelo Clube da Esquina, soube como poucos adentrar no mundo da viola. Em dois discos instrumentais, “Paisagens” (1998) e “Dez cordas” (2007), transita entre o tradicional e o moderno. Toca cururus, flerta com o movimento armorial e rompe preconceitos ao (re)construir Eleanor Rigby, de Lennon e McCartney. Ainda compôs uma ópera caipira, prova de que é teórico e prático do instrumento. Na Universidade de São Paulo (USP), foi o criador do primeiro curso de graduação de viola caipira, lugar em que também levantou um séquito de alunos admiradores. “O aluno de viola precisa ser, além de um bom músico, um pesquisador com pés fincados na antropologia, na sociologia rural e na história. Precisa ser um intelectual capaz de identificar os traços idiomáticos da viola e da música produzida pelos caipiras”, explica.
E assim, cada violeiro vai buscando suas referências. Paulo Freire, por exemplo, já botou distorção de guitarra na sua viola de cocho – aquela viola do Centro-Oeste construída a partir de uma peça única de madeira. Escavada e sem abertura para caixa de ressonância, ela traz um som metalizado. A distorção de guitarra, diz Paulo, está em seu subconsciente musical desde quando ficou marcado pelo solo de Jimi Hendrix, no hino norte-americano contra o fim da Guerra do Vietnã. Paulo, que é filho do anarquista, psiquiatra e escritor Roberto Freire, juntou a distorção de guitarra aos efeitos da música Antônio Conselheiro para simular o bombardeio de Canudos – nossa chaga aberta do sertão nordestino.
Quem também busca sonoridades diferentes é Braz da Viola. Luthier conhecido e autor de um dos mais famosos métodos de aprendizagem de viola, Braz agora mistura timbres da guitarra elétrica e contrabaixo com a viola caipira e a de cocho. Traz as melodias das toadas caipiras e deságua no blues e no jazz. “A viola tem um imenso caminho pelo século XXI, porque tudo está por ser explorado”, diz Myriam. A trilha mostrada por Braz da Viola e seus companheiros no projeto “Violeiros do Brasil” é uma espécie de ciclo de uma segunda geração de músicos. Isso se pensarmos que a primeira foi a de Renato Andrade, e a segunda, a dos demais aqui citados. Vale ainda lembrar de alguns não contemplados no projeto, e que são igualmente magistrais: Chico Lobo, Zeca Collares e Fernando Deghi.
Uma terceira geração, contudo, já surge no cenário independente, formada sob a influência de caminhos abertos por todos que a antecederam. Uma geração que já reflete uma pluralidade de sons. Em uma década ou menos, a maioria provavelmente será de novos mestres. Está aí a magia de um instrumento que se renova na bagagem das ascendências mestiças do brasileiro. E tudo se mistura no saco da viola. Com o diabo e seus santos.
“Ipod caipira”
Para os leigos e curiosos no assunto, a modernidade ajuda (e muito): é possível assistir a algumas preciosidades violeiras na teia gigante de pocket-vídeos do YouTube. Em um “Ipod caipira” não podem faltar músicas como:
- A famosa parceria de improviso entre Tião Carreiro e Almir Sater, no pagode;
- O encontro da viola de Roberto Corrêa e da rabeca pernambucana de Siba, no projeto “Rumos” do Itaú Cultural;
- A história ancestral de Vai ouvindo, de Paulo Freire, que diz que a viola ali foi feita de um antigo banquinho, “onde a gente passava as horas juntinho”;
- O arranjo genial dos improvisadores Adelmo Arcoverde e Ivan Vilela, na tradicional Asa Branca, de Luiz Gonzaga, em que as violas parecem adentrar os próprios tocadores.
No caso do projeto “Violeiros do Brasil”, um show recente em Belo Horizonte está editado e dividido em músicas para os internautas. Basta procurar os vídeos adicionados pelo perfil “taubkinmy”.
Update 21 de outubro:
- O programa Mosaicos, da TV Cultura, sobre Tonico e Tinoco;
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Esse fotógrafo digitalizou fotos suas na década de 1950 no Haiti. São apenas algumas, mas vale para ver um país meio século atrás. Vá lá no site dele para ver mais. Kesler Pierre
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O que disse Kai Michael Kenkel
Na retomada que faço de publicação de posts, escrevo aqui algumas considerações do professor assistente da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Kai Michael Kenkel, que tem refletido sobre a presença do Brasil na missão das Nações Unidas no Haiti. Pelo currículo lates dele, dá para perceber que ele já escreveu artigos sobre o assunto, orientou teses de graduação e orienta teses de pós-graduação. Deixo aqui algumas coisas que li dele:
Em contraste com o Canadá, o envolvimento do Brasil na manutenção da paz está em consonância com seus objetivos geopolíticos ao invés de um sentimento de obrigação moral. As tropas brasileiras têm realizado a sua missão com profissionalismo e sucesso, uma integração sem precedentes nas metas da política externa com aplicação militar. (…) Embora não totalmente desprovido de um componente moral, as motivações do Brasil não se enquadram na mesma categoria de altruísmo explícito que, tradicionalmente, constitui a singularidade da política externa canadense.
Como sou estrangeiro, acho que não me cabe fazer certas avaliações dos fatores que motivam a política externa brasileira. Fala-se muito que um dos objetivos era ganhar pontos para a campanha por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Outro seria o Brasil ganhar um perfil de líder na América Latina. Acho que esse esforço de começar a aprender a trabalhar bem com os outros está indo bem. Mas, para o objetivo do Conselho de Segurança, a participação em missões de paz não é a melhor maneira de ganhar espaço. Quem contribui com tropas senta à mesa de negociações com mais seriedade quando se discute a missão em questão. Mas só isso. Não é um modo particularmente eficiente de ganhar um perfil para integrar o Conselho de Segurança. Por exemplo, 45% das tropas em missões da ONU hoje são do subcontinente indiano: Bangladesh, Paquistão, Índia e Nepal. Exceto a Índia, esses países não têm perfil para integrar o Conselho de Segurança.
Acho que já chegou o momento de pensar em uma estratégia de retirada para os brasileiros. A ideia de toda operação de paz é ser pontual, limitada no tempo, pelo menos uma operação baseada no Capítulo VII. A ONU, em relatório recente, estabeleceu o que chamou de critérios anuais a serem cumpridos em cada setor da missão. E o planejamento deles acaba em 2011. Para o Brasil, chegou o momento de pensar em uma estratégia de saída. Sobretudo porque no Haiti já há uma muito forte presença da ONU fora da Minustah. Além disso, para a missão deixar um marco positivo, a transição para uma equipe de haitianos tem de ser preparada já.
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A concessão do Prêmio Nobel para o presidente norte-americano Barack Obama mostra que há algo errado nessa pós-nova ordem mundial. Se o fato de derrotar um republicano nos Estados Unidos, vira motivo para a concessão do símbolo da paz mundial, precisamos nos preocupar. Quando Obama venceu as eleições – fica aqui o registro – negros do mundo inteiro, inclusive no Haiti, comemoraram um momento único: a possibilidade de o império ver os excluídos da globalização de um novo jeito. Se Obama, tivesse usado uma pequena porcentagem de seus bilhões de dólares para a pobreza (como no cancelamento de dívidas dos países pobres) ao invés de abastecer os dutos contra a crise e a manutenção da máquina militar no Iraque e Afeganistão, talvez aí merecessem algo. Os negros ainda têm pouco a comemorar… Ah, em tempo, talvez a grande reportagem não feita sobre o Nobel da Paz seja os relatos dos bastidores dessa decisão…
Update 19 de outubro: belo texto da Naomi Klein sobre a influência negativa de Obama. “…emerge adotando o padrão claro: nas áreas em que outros países ricos estavam oscilando entre a ação baseada em princípios e a negligência, as ações dos Estados Unidos as fizeram inclinar-se para a negligência. Se esta é a nova era de multilateralismo, não é nada digno de premiação”.
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A vida na nuvem…. de tags

o amigo rodrigo savazoni indicou o wordle e eu achei muito bom para brincar de coisa séria. uma boa metáfora da vida recentemente, uma nuvem… de tags. coloquei lá um trecho do haitiano Dany Laferrière. e virou isso aí: um concretismo haitiano, forjado e remixado na net. escrevo hoje para contar que há tempos não escrevia por aqui. o final de 2008 e toda esta década dos primeiros meses de 2009 foram tempos de muitas mudanças. no mundo, obama foi eleito e tomou posse. o haiti comemorou. contudo, pouco mudou para aqueles negros de lá. a crise se aprofundou imensamente. e isso muito mudou para eles. bilhões de dólares foram gastos pelo mundo contra a quebra de empresas e das bolsas. se uma pequena parte tivesse sido usada para os pobres haitianos, a discussão em julho agora seria outra. mas o mundo não gira assim. nem a onu. ah… colaborei com a revista on-line terra magazine neste primeiro semestre de 2009. muita gente deu pitacos e petelecos bons por lá. dei os meus também. mas no segundo semestre os vôos serão outros. vou falando, vou falando…
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